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18.8.23

Frank RONAN

New Ross/County Wexford 1963

Em Portugal, obra editada pela Gradiva e traduzida por Maria do Carmo Fugueira.

OBRA:

The Men Who loved Evelyn Cotton (1989)

Os Homens que Amaram Evelyn Cotton

Gradiva, 1991

Trad. Maria do Carmo Figueira


Picnic in Eden (1991)

Piquenique no Paraíso

Gradiva 1992


The Better Angel (1993)

O Melhor Anjo
BIBLIOTECA

DIXIE CHICKEN (1994)
Frank Ronan é um escritor que marcou os anos 1990 em muitos países, nomeadamente em Portugal, onde foi publicado pela Gradiva. Era à época um autor jovem, recorrente na coleção de ficção desta editora, que revelou e acompanhou vários autores da nova geração de escritores de língua portuguesa. Eu já tinha lido dois livros dele e este terceiro confirmou a minha apreciação anterior: o autor é talentoso e a leitura é agradável,  mas nunca é marcante. Não sei o que aconteceu a Frank Ronan pois desapareceu dos holofotes do mundo literário. Provavelmente é um daqueles autores que marcou o seu tempo mas as gerações seguintes não renovaram o interesse pela sua obra. Dixie Chicken é o título de uma música que o protagonista Rory Dixon estava a ouvir quando morreu num acidente de automóvel. O romance assume desde o início a forma de um policial, género que eu não associava a Ronan. O romance anda à volta de um primeiro crime e depois de um segundo crime, em que a vítima é a filha do primeiro morto, Rory Dixon. Mas a descoberta dos autores dos crimes e das razões que estão por trás deles não assume a importância que geralmente tem nos romances policiais. Nesse aspecto, o desenlace da história é bem dececionante, tendo em conta a tradição do género policial. O que interessa ao escritor é expor as vidas por trás das vidas de fachada de cada personagem. Nada de mais corrente na literatura, assim como é previsível a escolha do narrador omnisciente, que Ronan transforma na personagem de Deus. As divagações de Deus são o que há de menos interessante neste livro, na minha opinião. Brasil Salvador 02.2016 3/5
A Morte de um Herói
Gradiva 1994

LOVELY (1995)
Gradiva 1996
BIBLIOTECA


Home (2002)

A Comunidade

Gradiva 2002

11.8.23

Marie-Hélène LAFON

Aurillac 1962
Editor Buchet/Chastel

Le Soir du chien (2001, romance)

Liturgie (2002)

Les derniers indiens (2008)

L'Annonce (2010)
Leitura

Les pays (2012)


Há escritores que constroem uma obra de grande qualidade, mas longe dos holofotes dos media e longe das multidões de leitores. E tornam-se, em alguns casos, em escritores de culto, pelo menos para alguns leitores. Em Portugal, penso em Teresa Veiga, em França em Marie-Hélène Lafon. Esta excelente escritora publicou agora Joseph, o seu último breve romance e pela crítica que li no Le Monde pude confirmar que ela mantém-se fiel ao universo que conheci nos seus livros Les Pays (2012) e Le Soir du Chien (2001). O mundo rural, a solidão dos habitantes desse mundo, agravada pela desertificação humana por que ele passa, os que ficam e os que partem, os problemas familiares, a observação de um mundo em extinção, são alguns dos temas que saltam de livro para livro de Lafon. É daqueles autores que estão a escrever sempre o mesmo livro e fazem-no de modo cada vez mais profundo. Mas acima de tudo, como estamos a falar de literatura, Lafon tem um estilo magnífico, conciso e revelador das complexas relacões entre as personagens ou entre estas e o meio que as envolve. Uma obra a que voltarei sempre. Setembro de 2014

JOSEPH (2014)
Joseph é um trabalhador agrícola. Trabalha e quase sempre vive nas quintas que precisam de mão-de-obra. Um homem solitário, mesmo antes de se ter afastado dos poucos familiares que tinha. Marie-Hélène Lafon faz um retrato implacável de um ofício, de um mundo em extinção, visto através de uma personagem que não se esquece facilmente. Um figura humana que vive pela superior arte literária de Lafon, que já conhecia e nunca desilude. Paris 07.2016 4/5

NOS VIES (2017)

Até agora o livro menos interessante de Lafon. A narradora conta a sua vida e a de duas ou três outras pessoas que costuma ver no supermercado. Inventa-lhes histórias, um passado, uma geografia, um conjunto de rotinas, simplesmente. Mas com uma língua sempre excelente. Melun 06.2021 3,5/5

Le Pays D'En Haut (2019)
Marie-Hélène Lafon
Entretiens avec Fabrice Lardreau
Arthaud 2023
Collection Versant Intime
BIBLIOTECA

HISTOIRE DU FILS (2020)
Prémio Renaudot

Histoire du fils é a história de uma família, uma saga familiar de certo modo, durante cerca de um século, mas marcada por uma complexidade narrativa e estilística invulgar. Adorei ler este brilhante romance de Lafon, e leria novamente com prazer o livro, inclusive para clarificar o puzzle que a autora propõe. A história de André, que nunca chegou a conhecer o pai mesmo sabendo quem ele era, é apresentada com permanentes saltos entre épocas e uma profusão de personagens que dá vertigem. É o ponto fraco do romance. Demoramos a entrar na história, o que nos obriga a mentalmente desenhar uma árvore genealógica que nem sempre é clara. Mas as personagens são fascinantes e a história acaba também por ser inesquecível. Melun 03.2021 (4/5)

4.7.23

Biblioteca Atores US

ÊTRE CARY GRANT (2021)
Ensaio de Martine Reid
Gallimard 2021
BIBLIOTECA
Leitura 09.2024




GÉANT (Adrien Gombeaud, 2025)
Capricci 2025
BIBLIOTECA Fabrice
  • James Stewart (Jonathan Coe, 1994)
O consagrado romancista britânico Jonathan Coe é um grande cinéfilo e durante um curto período dedicou-se à crítica de cinema. Escreveu pelo menos dois livros nessa área, um sobre Humphrey Bogart e este sobre James Stewart. No original inglês chama-se James Stewart: Leading Man. Não é na verdade uma biografia do ator, mas uma leitura da sua obra, da sua persona através dos muitos e importantes filmes que fez em Hollywood. Coe destaca justamente os três grupos de filmes que Stewart fez com Frank Capra, Anthony Mann e Alfred Hitchcock. Muito bom. Leitura: 2016, PV 4/5
The Films of Robert Taylor (Lawrence J. Quirk, 1975)
Este livro-álbum percorre a filmografia de Robert Taylor, um dos grandes galãs de Hollywood. Todos os filmes (cerca de 80) são apresentados pelos créditos, por um texto e por várias fotografias. A leitura dos livros desta coleção é sempre empolgante, mesmo quando o seu objeto não é um dos mais interessantes atores de Hollywood. Robert Taylor assinou contrato com a MGM em 1934 e por lá ficou até aos anos 50, quando os contratos com os estúdios acabavam. Depois criou a sua prória produtora e fez sucesso também televisão. No início da carreira, depois de ser emprestado a outras produtoras, tornou-se num dos maiores galãs românticos do cinema. Contracenou com Garbo, Harlow, Stanwick, Lamarr, Leigh, Garson, Shearer, Taylor, Gaynor, Turner, Katherine Hepburn, Dunne, entre outras top stars. Era um ator muito bonito mas cedo ficou preso a essa imagem delicada e até feminina. Tanto Taylor como a MGM sentiram necessidade de mudar essa imagem. Os anos 40, anos de guerra, ajudaram a essa mudança. Taylor passou a estar rodeado de muitos homens e poucas mulheres e a aceitar papéis de gangster e durões. E até ao fim da carreira assumiu muitas vezes papéis pouco românticos. Leitura: V.Conde 2019 5/5

28.6.23

Le Douanier Rousseau

Le Douanier Rousseau, ou l'éclosion moderne (Musée d'Orsay, 2016)
Foi emocionante ver a obra de Douanier Rousseau, um pintor que descobri recentemente, reunida no Museu de Orsay. O melhor ficou para o final: duas salas com os grandes quadros que representam a selva com alguns estranhos seres no centro viradas para nós, quadros enigmáticos que saíram da imaginação de um pintor que nunca saiu de Paris durante toda a sua vida! Esses quadros famosos e magníficos estão espalhados pelo mundo (Paris, NY, Moscovo, Washington, Cleveland, Chicago, Bale) e foram agora reunidos, provavelmente pela primeira vez, para esta importante retrospetiva parisiense. Paris 05.2016 Musée d'Orsay 5/5

Le Douanier Rousseau (Gilles Plazy, 1992)
Découvertes Gallimard nº153
 1ª edição 1992
BIBLIOTECA
Douanier Rousseau tem uma das vidas de pintores mais impressionantes que conheço. Toda uma vida a pintar perante a risada e a chacota (quase) gerais. Foi convidado a apresentar as suas obras no Salão dos Independentes, aliás desde a primeira edição e foi muitas vezes o centro das atenções não necessariamente pelas boas razões. Mas foi também, desde o início, defendido por Seurat, Signac, Alfred Jarry, Appolinaire e, no final da vida, por Picasso, que organizou em sua honra um banquete que ficou na história da arte. Mas a sede de reconhecimento nunca largou Rousseau e durante toda a vida viveu numa pobreza evidente, sempre crivado de dívidas aos fornecedores dos materiais necessários ao seu trabalho. Tentou por várias vezes, mas em vão, que o Estado francês lhe comprasse quadros e concorreu a projetos públicos. O reconhecimento que teve foi a estima dos pares. Viveu toda a vida adulta em Paris e não fez viagens. Foi um pintor urbano (ao contrário dos impressionistas seus contemporâneos) mas a fantasia levou-o a paragens longínquas e exóticas: a pintura da selva luxuriante é uma das suas imagens de marca. Póvoa de Varzim 2016 (5/5)

Découvertes Gallimard
2ª edição 2016

21.4.22

MURIEL SPARK 10




Aiding and Abetting (2000)
Dois homens apresentam-se no consultório de uma psiquiatra confessando serem um Lorde que anda fugido da polícia por ter morto há décadas a ama dos seus filhos. Qual dos dois será esse Lorde? Mas a psiquiatra também tem uma vida passada, escondida pela sua nova identidade, em que cometeu um crime na sua Alemanha natal. Chantagem, ameaça de pobreza e desespero vão empurrar este trio para uma dança de quem desmascara primeiro o outro. Foi de longe o livro menos interessante que li de Muriel Spark: onde está o génio da escritora do fundamental The prime of miss Jean Brodie (1961)? Li a versão francesa Complices et comparses (Gallimard, 2002). Paris/Londres 2017 2/5
A história de Symposium (1990), ou Le banquet na edição francesa de 1991, centra-se num jantar em que os convivas pertencem à alta classe britânica, milionários mais ou menos cultos, com ou sem título aristocrático. Enquanto jantam a convite de um casal, um bando de gatunos informados pelos empregados domésticos dos ricos, assaltam a casa de um dos convivas e assassinam a mãe de um deles. O retrato deste grupo social é dado com o humor e a ironia habituais de Muriel Spark, uma escritora escocesa que nunca me decepcionou.
"Elle fut si transportée par la célèbre Assomption des Frari que William faillit la supplier de ne pas léviter"
"Ah! le gay mélancolique... mais il est très utile dans un dîner, représenta-t-elle. On peut le mettre à côté d'un arbre: il lui fera la conversation"
Mas neste romance o sobrenatural tem um papel importante através de duas personagens e das peripécias que eles suscitam: o louco Magnus e a sua sobrinha Margaret, que se encontram associados a vários assassinatos. Os romances de Muriel Spark são sempre surpreendentes, mesmo quando trilham caminhos batidos (policial, sobrenatural, comédia da aristocracia) estes são declinados de forma original. Leitura 2016 Morro de S. Paulo 4/5
THE DRIVER'S SEAT (1970)
La Place du conducteur
Folio 1987
Leituras 2025

The Go-Away Bird and Other Stories (1958) 
The Bachelors (1960)
The prime of miss Jean Brodie (1961)
The Mandelbaum gate/196
The public image (1968)
Reality and Dreams (1996) 
The Finishing School (2004) 

12.6.18

Jean Renoir, cinéaste (Celia Bertin, 1994)

É o primeiro livro que leio sobre Jean Renoir. É uma biografia sucinta e competente, como é norma nesta coleção da Gallimard. Jean Renoir é apontado como o maior cineasta francês, quando muito do período clássico, anterior à Nouvelle vague. Dois dos seus muitos filmes estão entre os meus preferidos, The River (1951) e sobretudo La Règle du jeu (1939). Da leitura deste livro fica claro que o reconhecimento do seu talento e dos seus filmes, pelo público e pela crítica, não foi regular e aconteceu bem menos vezes do que se poderia pensar. Renoir batalhou muito para ganhar um lugar ao sol e não à sombra do pai, o pintor impressionista Renoir. Muitos dos seus filmes, quer de produção francesa, quer da fase americana, foram compreendidos e valorizados apenas por algumas (poucas) vozes, muitas vezes gratificados com escasso público. Parece-me que o reconhecimento mais alargado  e consensual que tiveram tantos realizadores clássicos (Ford, Wyler, Hawks, Carné, etc.) só chegou a Renoir a posteriori, depois da obra feita. Talvez continue a ser um cineasta mais amado por um núcleo duro e restrito de cinéfilos do que por um público mais alargado, mas interessado no cinema. Paris 2018 (4/5)

4.6.18

DELACROIX

Est-ce un Delacroix ? L'art de la copie (2025)
Paris: Musée Delacroix, mai 2025

L'ATELIER AU CŒUR DE LA CRÉATION 

La Madeleine dans le désert, 1845

L'éducation de la Vierge,1842

Portrait de Auguste Richard de la Hautière, 1828

Roméo et Juliette, 1851

Le Cardinal Richelieu..., 1831?

L'annonciation, 1841

Anacréon et une jeune fille, 1834

Lionne prête à s'élancer, 1863

Étude d'un homme nu, dit Le Polonais, 1822

Un forgeron, 1833?




Delacroix no Louvre (2018)
Uma impressionante retrospetiva de Delacroix pode ser vista no Louvre até julho. Para quem não conhece bem o pintor (como eu) vai ficar surpreendido com a variedade de géneros a que se dedicou. Quadros históricos e políticos, em que a História e a mitologia servem para defender posições políticas contemporâneas; quadros em que o exotismo (do mundo árabe do norte de África) não implica preconceito, antes revela, mais do que costumes, sensibilidades particulares e diferentes vivências íntimas do tempo; quadros florais ; cenas bíblicas; quadros de animais (felinos e cavalos) em luta; retratos. Gostei particularmente dos dois primeiros grupos de quadros. Delacroix queria atingir rapidamente a fama e para isso privilegiou os salões, onde podia ser visto por um público largo e fazer escândalo. Conseguiu tudo o que queria e ainda hoje os quadros monumentais desse período de juventude estão entre os seus melhores.  Ainda jovem acompanhou um mecenas a Marrocos onde fez imensos desenhos que depois o inspiraram na pintura de cenas locais, pintadas no essencial de memória. Paris 06.2018 Louvre 4/5

Delacroix and the Rise of Modern Art (National Gallery, 2016)
A exposição que a National Gallery de Londres dedica a Delacroix dá grande espaço aos pintores posteriores influenciados pelo mestre francês. Em certas salas exibem-se dois ou três quadros de Delacroix e duas ou três vezes mais quadros de outros pintores. Desconhecia que a influência de Delacroix sobre os pintores mais jovens fosse tão significativa. Mas é um facto que muitos destes inspiram-se diretamente na obra do romântico francês. De resto, parece-me que a exposição londrina não tem muitas grandes obras de Delacroix. Mesmo assim, como nunca prestei atenção à sua obra, a exposição foi uma revelação pessoal. Londres 04.2016 National Gallery 3/5

Delacroix "Une fête pour l'oeil" 
Nada sabia sobre Delacroix, pintor marcante do romantismo francês, que foi um dândi famoso e amigo de tantos homens e mulheres célebres do seu tempo, sobretudo ligado às artes. Delacroix fez sensação nos primeiros salões de arte em que participou e com a pintura Mort de Sardanopole tornou-se o chefe de fila dos pintores românticos, desafiando as regras dos neo-clássicos e dos seguidores de David. As reações de críticos e público foram violentas mas o espírito romântico estava introduzido. Em 1932 fez uma viagem a Marrocos, como convidado numa comitiva oficial do Estado francês, e trouxe de lá milhares de desenhos que deram origem a pinturas posteriores. A viagem foi uma revelação. Mesmo a antiguidade clássica que tanto amava ele foi descobri--la em solo africano (ele nunca chegou a fazer o Grand tour de Itália). Esta era a segunda viagem que fazia ao estrangeiro, depois de ter visitado em 1925 a Inglaterra, outra das suas principais influências. Delacroix dedicou grande parte da sua carreira a pintar paredes e tetos de dimensões consideráveis no Palácio do Luxemburgo,  na Biblioteca Nacional, na igreja de Saint-Sulpice e no Louvre, tendo sempre obtido tão nobres encomendas através do político Thiers. Delacroix foi até ao fim da vida um pintor nada unânime e só conseguiu entrar para o Instituto pouco antes de morrer. No entanto, foi defendido por alguns artistas, como Baudelaire, e teve uma enorme influência nas novas gerações de pintores, antecipando o impressionismo (ver quadro abaixo, La Mer de Dieppe). Leitura 03.2016 Paris 4.5/5



Delacroix Images de l'Orient (Herscher, 1995) 
BIBLIOTECA 

16.9.17

Literatura 2002

LE MORAL DES MÉNAGES (Eric Reinhardt, 2002)
Tenho a impressão de que a classe média consegue ser mais detestada do que a classe alta. Pelo menos na arte. Curioso. Le moral des ménages, do jovem mas já consagrado escritor francês Éric Reinhardt, é um retrato terrível de uma família da classe média, afundando-se na depressão por um pai de família frustradíssimo. Fascinado pelos seus superiores, aqueles que são o sucesso profissional e social encarnados, e horrorizado pela mediocridade dos que lhes estão abaixo, este pai é continuamente humilhado por aqueles que ele admira. Quem paga por isso, é a sua mulher e os seus dois filhos. Um destes é aliás o narrador, que sabe portanto do que fala, porque suportou a violência (simbólica) que o pai infligia quotidianamente aos seus. Uma família aterrorizada pelos sonhos de consumo e afirmação típicos da classe média. Um bom romance de um escritor claramente talentoso. Londres 09.2016 Nota: 3,5/5

1º Demi-sommeil (1998)
Actes Sud, 1998

13.12.16

Colleen McCULLOUGH L2

Desta vez li o livro (Tim, 1974) sem conhecer o filme, sem mesmo saber que o primeiro livro de Colleen Mccullough, além de ser um enorme sucesso, inspirou pelo menos dois filmes, o primeiro dos quais com o jovem Mel Gibson no papel do protagonista. O romance narra a história de amor entre uma solteirona rica, quarentona, e um jovem excecionalmente belo mas com um atraso mental que o afasta de uma vida normal. Protegido pelos pais e pela irmã, gozado pelos colegas de trabalho, lamentado pela sociedade, Tim encontra em Mary Horton alguém que pouco a pouco se torna a sua melhor amiga e a sua companheira para a vida. Leitura e história interessantes, embora tudo se encaixe de forma demasiado perfeita. As personagens são pouco complexas e as importunas são simplesmente afastadas para tornar o romance entre Tim e Mary idílico. Foi o romance mais próximo da chamada literatura cor de rosa que eu já li. Vou querer ver os filmes, pois a história e os atores (Pier Laurie & Mel Gibson, Candice Bergen & Tom McCarthy) prometem.Viagem Paris-Salvador 2017: 3,5/5
Nos anos 80, Colleen McCullough era uma escritora famosa em todo o mundo, assim como em Portugal (publicada pela Difel). Duas amigas minhas na altura leram vários livros dela mas eu não me interessava por uma literatura que suspeitava estar próxima da narrativa telenovelesca. E essa intuição tinha a sua razão de ser. Li agora As Senhoras de Missalonghi (1987), que conta a história de três mulheres que vivem sozinhas numa casa velha, numa pobreza evidente. Mas a sua condição é consequência de uma sociedade (Austrália, na primeira metade do século XX) que subordina as mulheres aos homens. Numa pequena povoação chamada Byron, fundada por um Hurlingford, quase tudo pertence a esta família, mas todos os negócios e heranças ficam com os filhos varões e as mulheres recebem casas e não são incentivadas a trabalhar. As viúvas e as solteiras caem facilmente na pobreza. Missy é uma dessas solteironas que não tem perspetivas de vir a melhorar a sua condição. Mas como acontece nas narrativas cor de rosa típicas, Missy vai passar de patinho feio da família a mulher independente e rica, que terá nas mãos o destino das fortunas dos parentes Hurlingford. A parte final do romance, com esta transformação radical da heroína, é uma decepção. Paris 2016: 3/5

15.11.16

Elizabeth TAYLOR

Londres 1912-1975, c. de 15 romances
1º AT MRS LIPPINCOTE'S (1945)
Rivages 2003
Conhecia Elizabeth Taylor, a escritora inglesa, do filme Angel, de François Ozon, que adapta o romance homónimo daquela. Trata-se do meu filme preferido de Ozon e desejo muito revê-lo, sobretudo agora que li o romance de estreia de Taylor. Basta ler esta primeira obra para ficar convencido de que Taylor é uma das melhores escritoras britânicas. O romance não tem propriamente ação relevante, acontecimentos marcantes que mudam o curso da vida das personagens. Um casal (Julia e Roddy) com um filho, acompanhados por uma prima solteira do marido, instala-se na casa de Mrs. Lippincote, que a arrendou ao casal enquanto Roddy cumpre serviço numa base militar local. O romance narra os dias de Julia, que se adapta mal à condição de dona de casa, e ousa liberdades pouco comuns numa época conservadora como a do tempo de guerra. Um romance de estreia admirável. Salvador 10.2016 4/5
HESTER LILLY (1954)
Rivages Poches 2009
BIBLIOTECA

ANGEL (1957)

DEVASTATING BOYS (1972)
Le papier tue-mouches
Rivages 1995
BIBLIOTECA

8.9.16

Ernesto SABATO

EL TUNEL (1948)
O Túnel, ed. Relógio D'Agua "Crime Imperfeito", 2009

O Túnel é um clássico da literatura argentina, com fama universal. Um homem confessa os motivos do crime que o enviou para a prisão: por ciúmes doentios, matou a amante. Por que "o túnel"? Talvez porque o pessimismo e o ciúme atávico do protagonista o mantêm num túnel sem saída. Reconheço as qualidades que fazem desta novela um clássico, mas a leitura não me entusiasmou por aí além. P. Varzim 08.2016 3/5

ERNESTO (1975)

Ernesto é o único romance do grande poeta italiano Umberto Saba e é uma obra-prima. É um romance autobiográfico que trata da juventude de Ernesto e da descoberta da sua sexualidade. O livro aliás começa com a sedução do jovem protagonista por um homem mais velho (com 20 e poucos anos...) e sucedem-se cenas de coito entre os dois narradas com a maior naturalidade. O livro foi publicado pela primeira vez em 1975, muitos anos depois da morte do autor. Paris 10.2020 (5/5) 

2.8.16

Enquête sur Sherlock Holmes (1997)

Ensaio de Bernard Oudin
Se há personagem literária que merece uma biografia essa é Sherlock Holmes, criado por Arthur Conan Doyle em 1887. Muitos pensaram que Sherlock realmente existia, foram criados em todo o mundo clubes em seu nome, e são incontáveis os filmes e as séries televisivas que o têm como personagem principal. VC 2016 3/5

Godard (Le cinéma) (Découvertes Gallimard, 2006)

Dos vários livros dedicados a personalidades da cultura e das artes da coleção Découvertes da Gallimard que já li, este é o menos biográfico. A biografia de Godard está na sua obra. A vida dele confundiu-se desde jovem adulto com o cinema, seja como cinéfilo, seja como realizador. O livro é portanto uma excelente introdução ao seu cinema, aos seus filmes, que são contextualizados e comentados, por vezes deixando-me na mesma perplexidade que me provocam certos filmes de Godard. Digamos que não mudei muito a minha visão e adesão aos filmes de Godard que, independentemente da sua qualidade e importância estética, tanto me impacientam (Pierrot le fou) como me entusiasmam (Le Mépris, Vivre sa vie). VC 2016    3/5

21.7.16

Simone de Beauvoir. Ecrire la liberté (2008)

Bastou um livro, Le Deuxième Sexe (1949), para tornar célebre Simone de Beauvoir. Essa obra está na origem do movimento feminista internacional: quantas obras têm esse mérito, dar origem a uma nova forma de ver o mundo e, por conseguinte, de mudá-lo? Esta breve biografia de Beauvoir, escrita por Jacques Deguy e Sylvie Le Bon de Beauvoir, é uma excelente introdução à vida e à obra da escritora, que começou por escrever romances e foi consagrada com o prestigiado prémio Goncourt em 1954 por Les Mandarins. Reconheço que não fiquei com vontade de ler os romances de Beauvoir, mas sim os ensaios e os livros autobiográficos como Mémoires d'une jeune fille rangée (1955). Mas a sua vida privada (a relação sui generis com Sartre), a sua procura de intervenção militante social em vários momentos charneira da sociedade francesa, e a sua paixão pelas viagens, são outros aspectos abordados no livro com a devida atenção. Caso para dizer: não apenas a obra mas também a vida de Simone de Beauvoir marcaram o século XX. PV 2016 4/5

11.7.16

Biblioteca Claude LÉVI-STRAUSS

LÉVI-STRAUSS (Emmanuelle Loyer, 2015)
Le Grand Livre du Mois
BIBLIOTECA F

Claude Lévi-Strauss L'homme au regard éloigné (2009) 
Uma excelente biografia e ao mesmo tempo uma introdução ao pensamento de um dos grandes intelectuais do século passado, Claude Lévi-Strauss (Strasbourg 1908-Paris 2009). Começou por estudar Filosofia, foi professor de liceu e depois de um convite para integrar a Universidade de São Paulo, abraçou a Antropologia. Com a segunda guerra mundial, foi para Nova Iorque onde fez o doutoramento sobre as estruturas de parentesco. Regressado a França, teve o seu trabalho cada vez mais reconhecido, inclusive no estrangeiro (foi convidado a discursar na ONU) mas o reconhecimento institucional tardou. Entrou no Collège de France (1959), na Académie Française (1973), criou a revista L'Homme (1961). O estruturalismo, que ele renovou no estudo das sociedades e dos mitos, abalou o papel dominante do existencialismo nos anos 50/60. A sua obra, especializada e académica, é também uma reflexão sobre o Homem e o seu papel e lugar na Natureza. Vila do Conde 07.2016: 5/5

Claude Lévi-Strauss (2003)   
Ensaio de Denis Bertholet 
Odile Jacob Poches 2003
BIBLIOTECA

15.6.16

La liste de mes envies (2012)

Romance de Grégoire Delacourt

La Liste de mes envies (2012) foi um enorme sucesso de vendas tendo dado origem a um filme. Um sucesso que lembra outro anterior, L'élegance de l'hérisson, pelo humor e pelo tom menor que domina a vida da protagonista. Não gostei nem de um nem de outro, mas La Liste é francamente pior. Uma mulher que, apesar dos limites provincianos da sua vida (assim expostos por ela), considera-se feliz, a tal ponto de recusar receber o prémio do Euromilhoes para não perder o pouco que tem. Mas o marido não pensa assim e foge com o prémio. Tudo isto é narrado na primeira pessoa com uma linguagem pobre muito colada às modas do tempo. Uma obra com um prazo limitado. Londres 1/5

3.5.16

Caiman. Cuadernos de cine (mayo 2016)

Caiman. Cuadernos de cine (mayo 2016) 
Para um cinéfilo interessado no cinema espanhol, o número 100 da revista Caiman Cuadernos de cine (mayo 2016) é de consulta obrigatória. Publica a lista dos 100 melhores filmes espanhóis segundo um inquérito feito junto de 350 personalidades ligadas ao cinema (críticos,  programadores,  historiadores, etc.). Obviamente não conheço a maior parte dos filmes, apesar de ter visto oito dos dez primeiros. Também são publicadas as 350 listas recebidas pela revista. É curiosa a lista do português Dario Oliveira, que reflete bem a recepção do cinema espanhol em Portugal: Buñuel (3 filmes, incluindo um francês e outro mexicano), Saura, Erice e Almodóvar esgotam o seu top 10. Depois de ter lido este número da Caiman, fiquei com vontade de ver muitas coisas que desconheço, sobretudo dos anos 60 é 70.
Eis o Top 10 da Caiman.
1.Viridiana (Buñuel, 1961) 
2.El Espíritu de la colmena (Erice, 1973) 
3.El Verdugo (Berlanga, 1963) 
4.Plácido (Berlanga, 1961) 
5.Arrebato (Zulueta, 1979) 
6.La caza (Saura, 19656) 
7.El Sur (Erice, 1983) 
8.El extrano viaje (Fernán-Gómez, 1964) 
9. El mundo sigue (Fernán-Gómez, 1963) 
10.El desencanto (Chávarri, 1976)

12.4.16

GEORGE SAND

GEORGE SAND (1997)
Uma boa biografia de George Sand, uma mulher à frente do seu tempo. Foi uma escritora polémica e popular, que conviveu de perto com a geração romântica da sua época. Não admira que haja tantos livros sobre a escritora: a sua vida assemelha-se à das grandes heroínas do Romantismo. Paris 04.2016 (4/5)
NOUVELLES (1961)
Édition d’Ève Sourian
Des Femmes 1986
BIBLIOTECA

BIBLIOTECA
La Mare au diabe (1846, Folio 2004)
La Petite Fadette (1848)

4.1.16

Fragonard l'invention du bonheur (Sophie Chauveau, 2011)

Evitei sempre a leitura de biografias romanceadas. Gosto de biografias sérias, mais ou menos eruditas, com ou sem notas de rodapé, breves ou exaustivas, mas que tenham as qualidades de um ensaio de história. Como queria ler com urgência algo sobre Fragonard, peguei na biografia romanceada de Sophie Chauveau. Afinal acabei por gostar de ler a obra, apesar da irritação que me provoca o caráter romanceado da mesma. Digamos que como obra de ficção não se sustenta minimamente. Muitas exclamações e reticências para o meu gosto, frases e expressões banais que servem para fazer avançar a ação. Para mim só interessavam os factos e a interpretação dos mesmos pela autora e, claro, tudo numa linguagem clara, que expõe o sentido da obra de Fragonard de forma simples e correta. Soube depois, quando vi a exposição do Museu do Luxemburgo, que a romancista deu largas à imaginação para preencher lacunas biográficas deixadas em aberto pela historiografia pela não existência de documentos que autorizassem a sua cobertura. Por exemplo, o filho que Fragonard teve com a cunhada mas que foi criado como se fosse do pintor e da mulher. Chauveau desenvolve esse episódio como se fosse um facto indesmentível. Mas o que mais gostei foi ter ficado com um retrato colorido e com algum pormenor sobre as condições em que artistas como Fragonard viviam e trabalhavam. A biografia não é demasiado psicológica (ainda bem) e dá a devida atenção às inovações da obra de Fragonard nos seus aspetos materiais e simbólicos assim como sociais e culturais. Paris 4/5

ST. AUBYN

SOME HOPE (1994)
Edward St. Aubyn é o autor britânico de uma série de romances fortemente inspirados na sua própria biografia, publicados a partir dos anos 90, que têm por protagonista Patrick Melrose. Esses romances formam um ciclo, já encerrado nos anos 2000, que foram publicados em francês pouco depois da sua publicação original inglesa, mas que em Portugal só chegaram às livrarias nos últimos anos pela Sextante. O que se estranha pois a edição portuguesa esteve atenta à nova geração de escritores britânicos dos anos 80. Li então por estes dias Après tout, tradução francesa de Some Hope (1994), e gostei francamente do que li. Um mergulho cáustico na aristocracia inglesa, minada pela urgência do aparecer na esfera mundana. Patrick Melrose, saído de uma vida de toxicodependente, recupera a lucidez que não traz, porém, qualquer consolo, antes a perceção aguda da podridão que o rodeia. Gostaria de ler os outros volumes do ciclo. Milão, Janeiro de 2016: 4/5