Quando vi Les Enfants du Paradis em 1985, na RTP, ainda não tinha 20 anos, mas nunca me esqueci do efeito que teve em mim essa descoberta. Até hoje é o meu filme francês preferido, e poderia muito bem escolhê-lo como o meu filme preferido de sempre. Das três vezes que o vi não hesitei um segundo em dar-lhe a nota 10/10, que poucas vezes utilizo. Para mim o filme é um milagre cinematográfico, cuja realização se arrastou por vários anos na França ocupada pelos nazis, tendo estreado depois da guerra, em 1945. Ou seja, condições tão adversas não poderiam resultar num trabalho perfeito. Mas o filme vai para além da perfeição. Há coisas no cinema francês da época (atores, temáticas, estilo de representação, argumentos excessivamente literários, etc.) que geralmente impedem a minha adesão, mesmo aos melhores filmes. Les Enfants du Paradis é a grande excepção: tem todos esses elementos mas transforma-os com felicidade, aos meus olhos, em qualidades evidentes. Os atores, que me irritam noutros filmes, encantam-me neste e entram, por via deste filme, na dimensão do mito. Em primeiro lugar, Arletty, por quem tenho uma paixão enorme devedora quase exclusivamente aos Enfants du Paradis. Claro que a sua Garance é uma das grandes personagens do cinema. Jean-Louis Barrault é, como Arletty/Garance, uma aparição, um ator com um movimento corporal lunar (é um mimo). E há também Maria Casarès, menos marcante, mas inesquecível.
Mas acima de tudo, o que me entusiasma no filme é o argumento e os diálogos de Jacques Prévert. Aliás, é justo atribuir a autoria do filme à dupla Carné/Prévert. O filme é sobre o Amor, na sua dimensão mais sublime, quando une dois seres (Garance e Baptiste ou Arletty e Barrault) acima de qualquer contingência material. As personagens são atores e movimentam-se no boulevard du crime, no meio do teatro mais popular e grosseiro. Já vi milhares de filmes mas nunca vi diálogos como os deste filme. Gostaria de os memorizar como outros memorizam poesias. Poderia continuar a elencar as qualidades do filme, que é uma sucessão de cenas cada uma melhor do que a outra, sem momentos fracos. Mas fico-me por aqui. Hei-de ter outras ocasiões para falar do filme, que agora circula pelas salas e em DVD, pelo menos desde 2012 (quando revi o filme quase trinta anos depois da sua descoberta), numa versão resmasterizada. Paris: 2012 FQL & Le Desperado 12.2015 5/5


