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8.12.19

Ladj LY

LES MISÉRABLES (2019)
Um drama policial impressionante sobre um bairro desfavorecido e problemático dos arredores de Paris. Prix du Jury de Cannes merecido. Recebeu 4 César: meilleur film, Prix du Public, montage, espoir masculin. Paris 2019 Bercy 3/5

24.5.18

As Asas do Desejo (Wim Wenders, 1987)

Berlim é uma cidade que certamente concentrou muitos anjos em boa parte do século 20. Todas as dores e desesperos se abateram sobre a cidade dividida. Os anjos auscultam serenos impávidos essa infelicidade generalizada. Wim Wenders assina um filme muito belo nas imagens e nos textos, que são da sua autoria mas foram inspirados por Rainer Maria Rilke. Hoje não recebo o filme com o assombro que me suscitou na estreia, era eu um cineclubista e militante do arte e ensaio mais exigente do que sou hoje. Recebo-o com alguma indiferença, acho que prefiro mesmo a fase americana de Wenders. Com este filme Wenders foi considerado o Melhor Realizador em Cannes, recebeu o Independent Spirit Award for Best International Film, e foi nomeado para o César du Meilleur film étranger e para o BAFTA Award for Best Foreign Language Film. Paris 3/5

9.3.18

Les Garçons sauvages (Bertrand Mandico, 2017)

Les Garçons sauvages é um filme que não deixa ninguém indiferente. Cinco rapazes rebeldes, de famílias ricas mas com um historial de ofensas e mau comportamento, são levados por um capitão de veleiro para uma viagem que pretende reformá-los. Os rapazes revertem a relação de poder com o capitão, livram-se dele, e vão dar a um ilha que tem o poder de transformar rapazes em raparigas. Esta narrativa fantástica é acentuadamente homoerótica e dessa dimensão decorre os momentos mais iconoclastas e divertidos do filme. O trabalho de imagem de Mandico é espantoso: é um dos filmes mais inventivos e desafiadores que tenho visto. Paris 3,5/5

5.2.18

Toni Erdmann (Maren Ade, 2016)

Toni Erdmann é um filme que me surpreendeu pelo argumento: através da relação entre um pai e a filha, vemos a transformação das relações humanas no trabalho e na esfera privada provocada pelas mudanças sociais recentes. Um pai, para se aproximar da filha que não tem tempo para ele, provoca-a impondo-se entre as  relações profissionais dela. O registo é marcadamente cómico lembrando as grandes lições de mestres como Jacques Tati, que usava o seu corpo e figura para revelar as contradições do mundo aparentemente organizado e funcional. Um dos melhores filmes de 2016. Paris 2017 3,5/5

1.2.18

Le Vent se lève (Miyazaki, 2013)

Miyazaki fecha a sua carreira de realizador com (mais) uma obra-prima. Le vent se lève foi um sucesso estrondoso no Japão e suscitou polémica como não era habitual na estreia dos filmes de Miyazaki. Mas Le Vent se lève é um filme atípico do seu autor, já que é um filme com personagens adultas e é um filme de reconstituição histórica (Japão e Europa nos anos 1930). A infância e as crianças também aparecem no início do filme (a infância do protagonista), mas não têm a importância central que assumem em outras obras de Miyazaki. Apenas os sonhos de infãncia comandam toda a acção do protagonista ao longo da sua vida. Le Vent se lève homenageia de forma comovente a literatura, a começar pelo título, "Le vent se lève / il faut tenter de vivre", versos de Paul Valéry, que coroa a paixão entre o protagonista e a sua apaixonada. Há também uma referência à Montanha Mágica, de Thomas Mann, num filme em que a Alemanha do período negro hitleriano está sempre presente. O filme é sobre a paixão de um engenheiro aeronáutico pelos aviões e da sua ambição em conseguir chegar mais longe do que a engenharia alemã da época. Mas todos os avanços nessa área do conhecimento técnico tiveram no futuro próximo consequências nefastas para a humanidade. Miyazaki consegue articular muito bem e de forma sensata essas duas faces da mesma moeda. E consegue-o com a habitual beleza formal dos seus outros filmes. Le Vent se lève (2013) Paris, Bastille 4,5/5

2.12.17

Lola (Jacques Demy, 1961)

Lola (Anouk Aimée) é uma dançarina de cabaret em Nantes que cria sozinha um filho. Enquanto espera que o pai deste apareça, tem um caso com um marinheiro americano e desperta uma paixão numa antiga amizade (Marc Michel). O filme não é musical mas há aspectos (na direção de atores e na composição das cenas) que revelam bem que esse era o projeto inicial de Jacques Demy para este seu primeiro filme. A música é do grande Michel Legrand e aqui começava uma das parcerias realizador-compositor mais belas que o cinema nos deu. Paris 2017 Ecoles 3/5

4.2.17

Billy Lynn's Long Halftime Walk (Ang Lee, 2016)

Com um título destes o filme tem mais dificuldades em ultrapassar o secretismo com que tem sido lançado. Em Paris é exibido em apenas quatro salas. Mas este último filme de Ang Lee é uma discreta maravilha, que vai provavelmente ganhar um estatuto de culto com o tempo. Conta a tourné pela América de um grupo de soldados condecorados por atos de bravura na guerra do Iraque. Mas nessa digressão são engolidos pela máquina do show bizz, acabando estes heróis por serem figurantes de um show das Destiny's Child de Beyoncé. O filme suscita muitas questões interessantes, pelo menos é mais profundo do que A Odisseia de Py, a anterior obra de Lee. Paris 3,5/5

1.4.16

Les Trois Couronnes du matelot (Raoul Ruiz, 1983)

Les Trois Couronnes du matelot (1983) é um grande filme de Raoul Ruiz, que o consagrou junto de um público mais vasto do que o habitual. O filme tem as qualidades típicas que fascinam nos seus filmes: o onírico é tão ou mais importante do que o real e a narração do que o narrado, a multiplicação de histórias que se encaixam como bonecas russas, a poesia como dimensão superior da existência. Encantatório é a palavra que me ocorre para traduzir o efeito do filme em mim. Mas o que me levou a ver este filme foi o facto de ter sido filmado em Lisboa e com alguns atores portugueses. Lisboa não é Lisboa neste filme, é um porto quase irreal, latino acima de tudo (ouvimos tango). Vi este filme na sessão de abertura da retrospetiva de Ruiz na cinemateca francesa. Uma enorme sala lotada que consagrou a posição única que Ruiz ocupa na história do cinema. Paris 4/5

21.1.16

Carol (Todd Haynes, 2015)

Carol é, para mim, o melhor filme de 2015 e é pena não ter sido sequer nomeado para o óscar de melhor filme do ano. Carol é a adaptação de The Price of Salt, de Patricia Highsmith, e deve ser um daqueles casos em que o filme supera o livro já que este não está entre as grandes obras de Highsmith, mas o filme está entre as melhores de Todd Haynes e do cinema americano mais recente. Carol é uma burguesa de Nova Iorque que está em vias de perder a custódia da filha em favor do marido porque tem relações amorosas com mulheres. Estamos em 1952/1953 e esta história de um amor incomum contrariado e penalizado pelo puritanismo americano da época já deu origem, sob diversas variantes, a uma família de filmes quase sempre notáveis: as obras-primas de Douglas Sirk (anos 50) e o mais recente Far from Heaven (Haynes, 2002). Cate Blanchett e Rooney Mara (melhor atriz em Cannes) encarnam de forma superlativa o desafiante par apaixonado Carol e Therese. Paris 2016 Bibliothèque 5/5

13.12.15

Mia Madre (Nanni Moretti, 2015)

Mia Madre é o título do último filme de Nanni Moretti e remete para o tema central do filme: uma realizadora (alter ego de Moretti?) ocupa-se da rodagem de um filme ao mesmo tempo que faz visitas frequentes ao hospital, onde a mãe está internada. É um filme sensível e pacífico sobre a família. É um bom filme, feito no registo a que o realizador romano nos habituou nos últimos anos, mas que me vai deixando um pouco indiferente, reconheço. Paris 3/5

2.6.15

L'Ombre des femmes (Philippe Garrel, 2015)

Tenho gostado muito dos últimos filmes de Garrell. Parece fazer sempre o mesmo filme, com pequenas variações, sobre as vidas cinzentas dos parisenses. Neste filme um homem e uma mulher amam-se e vivem juntos mas são também infiéis um ou outro. A narração off tão nouvelle vague deste filme não consegue definir o que vai no coração das personagens: "não sente ciúme nem ódio" diz-se a dada altura do homem. Fotografia maravilhosa de Renato Berta. Paris 2015 Les Halles 4/5

26.5.15

A Tomada do Poder por Luís XIV (1966)

No espaço de dias vi dois filmes sobre Louis XIV e a ambição representada pelo Palácio de Versailles. O filme britânico de Rickman é pra esquecer, um telefilme da BBC pior do que muitas séries da cadeia televisiva. O filme de Rossellini, também feito para a televisão, mas estreado nas salas devido à sua qualidade, expõe de forma didática a ascensão de Louis XIV que se seguiu à morte do cardeal Mazarin e ao afastamento do visconde Fouquet, que fazia sombra ao monarca francês. O que quero destacar é o realismo com que é apresentado o quotidiano da corte francesa, o que não deixa de ecoar os estudos de Norbert Elias sobre a sociedade de corte, contemporâneos do filme. Paris FQL 4/5

11.1.15

The Straight Story (David Lynch, 1999)

Vi este filme quando estreou há quinze anos. E revi-o agora. E a impressão de estar perante uma obra-prima foi mais forte do que nunca. Uma história simples, como adianta o título português, que é tão simples e complexa como a própria vida de cada um. Um velho americano faz uma viagem de centenas de quilómetros numa máquina de cortar relva para visitar o irmão. Um road movie original com o ritmo e a generosidade com que a terceira idade por vezes nos gratifica. Porto 1999 Passos Manuel & Paris 2015 FQL  5/5

5.11.14

Le Paradis (Alain Cavalier, 2014)

O último filme que vi de Alain Cavalier, Iréne (2009), tinha já todas as qualidade e defeitos deste Le Paradis (2014). Cavalier não sai de casa e filma, com planos incrivelmente belos por vezes, a felicidade que está por todo o lado: nos seres jovens que o rodeiam, nos animais (predadores e vítimas), nas plantas, na mudança das estações, nos objetos lúdicos que ganham vida e são dramatizados. Home movies, umbigo movies é o que Cavalier tem feito e esse fechamento sobre si e a despedida da vida que se sente nestes filmes torna-os pouco interessantes para mim. Paris 2014 (2,5/5)

29.5.14

Adieu au langage (Jean-Luc Godard, 2014)

Para quem diz adeus à linguagem, tanto empenho em apropriar-se da renascida e agora lucrativa 3D para exprimir a sua visão do mundo pode parecer contraditório. E já o tinha feito em 3x3D. Mas afinal Godard é um apaixonado pela linguagem e pelo império dos signos. Mais uma vez maneja como nenhum outro realizador os recursos audiovisuais existentes e frequentemente mal utilizados. Assim, o filme garante algumas fulgurâncias de expressão poética, e muito humor, mas tal como me aconteceu com Film Socialism, a meio do filme acuso o cansaço por tanto virtuosismo. Paris 2014 UGC Les Halles (3/5)

2.12.13

Le Mépris (Jean-Luc Godard, 1963)

Cartaz  de 2013
Faz meio século uma das obras-primas e um dos meus filmes preferidos de Godard: O Desprezo (Le Mépris, 1963). Por isso foi reposto há semanas nas salas francesas, numa nova cópia e com um novo cartaz. Vi-o agora no Nouveau Latina, uma das salas parisienses com programação mais interessante.
Tanto quanto me lembro, foi a segunda vez que vi o filme, e a primeira foi também numa sala de cinema (portuguesa) quando há uns bons anos houve uma reposição do filme em Portugal. Espero que volte em breve a visitar as salas portuguesas. Todos merecemos. Paris 2013 Le Nouveau Latina 5/5

20.11.13

Les Rencontres d'après minuit (Yann Gonzalez, 2013)

Les Rencontres d'après minuit é uma comédia erótica que marca a estreia na longa-metragem do jovem realizador francês Yann Gonzalez. Um grupo de pessoas reúne-se numa casa para uma orgia, para uma soirée que passa sobretudo pela fantasia, pelo fantasma, pela expectativa do que poderá acontecer nessa orgia. Lírico, fantástico, original. Um realizador a seguir com interesse. Paris 3/5

19.10.13

Nazarin (Luis Buñuel, 1959)


Nazarin, um dos meus filmes preferidos de Buñuel, visto este ano na sua terra natal. Como acontece com frequência com os clássicos, esta revisão do filme foi a mais empolgante. Madrid 2013 Cine Doré & Lisboa 1997 Cinemateca Portuguesa 5/5

Luis Buñuel. Cuatro obras maestras de un director genial
Box 4DVD 

El (1953)

Abismos de Pasion (1954)

Ensayo de un Crimen (1955)

Nazarin (1958)