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3.11.21

O Sono da Morte (Dick Haskins, 1958)

É o primeiro livro de um escritor português que assinava como Dick Haskins, que ficou na história como autor de policiais. Até hoje tem sido reeditado... Mas este policial é bem escolar, tudo desenhado a esquadro. Há o crime de um homem poderoso e rico, e o principal suspeito, que tem tudo contra ele, vai precisar de um detetive excepcional para o libertar da cadeia certa. Voilà. Paris 2021 2/5

22.7.20

A Nossa Alegria Chegou (Alexandra Lucas Coelho, 2018)

O último romance de Alexandra Lucas Coelho é ambicioso, talvez mais do que os outros dela, mas foi penoso lê-lo. Tive a impressão de que nada do que é narrado se sustenta minimamente. Há referências pontuais a acontecimentos sociais e políticos de hoje mas é tudo tratado num registo rarefeito, que nunca ganha uma forma concreta. Há três jovens, e uma mãe e filho, num local onde a natureza é soberana, sol, mar, plantas, animais. A civilização não está longe mas está tomada por um regime opressivo. Não há muito mais quanto ao enredo. Mas afinal este pouco importa num romance que não acredita nele. Vila do Conde 2020 (2/5)

19.7.18

Leitura: Homens imprudentemente poéticos (Valter Hugo Mãe, 2016)

Alguns anos e muitas leituras depois, regresso ao universo de valter hugo mãe. Universo e escrita inconfundíveis, mas a opção por uma história com personagens mitificadas, como num dos velhos contos do japão, foi pessoalmente dececionante. Senti saudade das personagens contemporâneas e com cheiro do apocalipse dos trabalhadores... VC 3/5

17.8.16

Retrato de Rapaz (Mário Cláudio, 2014)

Uma capa magnífica para um magnífico livro. Foi com Mário Cláudio que me iniciei há muitos, muitos anos (Amadeo, Rosa) na arte da biografia como arte literária ou biografia romanceada, que remetem para uma produção literária com um peso assinalável no mercado editorial. Mas o que Mário Cláudio faz nesta área nada tem a ver com o que quase todos os outros fazem. Nestes falta literatura e sobra informação factual, como se a ficção (o romance) fosse um dispositivo formal utilizado para divulgar teorias, factos biográficos, dados históricos. Com Mário Cláudio a arte literária é o centro de tudo. Em Retrato de Rapaz, ganha vida um discípulo de Leonardo da Vinci, conhecido por Salai, para além do próprio mestre e de outros personagens que com eles se cruzam. Não há muita informação documentada sobre tal relação mestre/discípulo, e nessa ausência a arte da imaginação do escritor encontra um terreno fecundo. Mas o que eu mais gosto neste escritor é a sua língua, que pertence obviamente ao nosso tempo, mas que não esconde, antes manifesta à superficie, a sua espessura histórica. Um grande romance. 5/5

25.7.16

O Meu Amante de Domingo (Alexandra Lucas Coelho, 2014)

Há livros que de tão inteligentes cansam. Como O Meu Amante de Domingo. Parece um filme de Tarantino, na agilidade narrativa e quando nos lança uma protagonista que não se distrai do objetivo de assassinar um amante. A autora - excelente jornalista que admiro bastante, ainda por cima amante das coisas brasileiras como eu - aproveita uma trama folhada (como os bolos) para partilhar os seus vastos conhecimentos culturais, em particular sobre maravilhosas personagens do Brasil no seu melhor, impagáveis Euclides e Nelson. Foi talvez o que mais gostei, o que não é bom sinal. A protagonista é uma intelectual, revisora de textos literários de alto coturno, que podia estar na carreira universitária, mas faz do palavrão as suas vírgulas porque... nasceu em Vila Nova de Gaia. Não se deve dar importância a este tipo de pormenor, mas este determinismo socio-linguístico não me caiu muito bem. Esperava mais deste romance, que confirma mesmo assim o considerável talento literário da autora. Vila do Conde 3/5

3.8.15

Hugo Gonçalves: Fado, Samba e Beijos com Língua (2011)

Um conjunto de textos curtos, saborosos, sobre a vida de hoje. Cor local e sinais dos tempos é o que não falta nestes textos, será fácil no futuro datá-los a partir da sua leitura. Alguns textos não ultrapassam o registo ficcional desses sinais do tempo, outros são mais ambiciosos. Resta-me agora conhecer os romances deste jovem escritor. Uma leitura de verão por excelência. Praia das Caxinas: 3/5

21.7.15

O Teu Rosto Será o Último (Ricardo Pedro, 2012)

Este livro é um dos mais celebrados da literatura portuguesa mais recente. Ganhou o prémio Leya 2011 e constitui a estreia do autor no romance. Além disso, foi traduzido em vários países e pelo menos em França recebeu elogios fartos e foi publicado numa coleção de prestígio. Para primeira obra o livro tem muitos méritos, a começar pela ambiciosa construção fragmentária, alternando capítulos com tempos e protagonistas diferentes. Mas há uma família no centro da trama, a família de Duarte, a personagem principal. Esta família é amaldiçoada, pois sobre todos os seus membros cai uma tragédia, o mesmo se passando com os avós de Duarte. Talvez este elemento não jogue a favor da qualidade do livro, a meu ver. Mas o que me fez divergir do coro de elogios que teve este romance tem sobretudo a ver com a escrita. O talento do autor é inegável, sendo merecido o prémio Leya que recebeu. Mas a bela escrita é esforçada, vê-se as costuras do trabalho aplicado e bem feito. Isso impede que uma voz pessoal, inconfundível, se manifeste. E, pormenor estilístico que me peturbou a leitura, o autor tem uma tendência para usar e abusar das enumerações (e das anáforas), algumas francamente deselegantes. Uma obra sobrevalorizada. Verão 2015: 3/5