Documentário de Rodrigo Felha
Este documentário encerrou o 17° Festival du cinéma brésilien de Paris, em 2015. A sala estava cheia, certamente pela temática, que naturalmente atrai a comunidade LGBT parisiense. Aliás, nesse ano o festival teve uma presença significativa de filmes de temática gay: Castanha (sobre um drag queen da noite de Porto Alegre), o maravilhoso Hoje Quero Voltar Sozinho (ficção sobre a descoberta do amor entre adolescentes, um deles cego), Olho Nu (sobre Ney Matogrosso), o conhecido O Beijo da Mulher Aranha e o filme de abertura Trinta (sobre um ex-bailarino do Teatro Municipal do Rio que revolucionou os desfiles de samba). Favela Gay utiliza um dispositivo simples mas eficaz: muitos grandes planos sobre os gays assumidos e que conquistaram um lugar ao sol nas favelas onde nasceram e sempre viveram. Que personagens tão interessantes! Contam o seu percurso de rejeição familiar e da comunidade a que pertencem, mas sobretudo a sua vitória sobre o machismo e o preconceito reinante nas comunidades/favelas do Rio. A meu ver o filme perde muito ao privilegiar os travestis, que é a face mais "folclórica" do mundo gay, na favela ou fora dela. Há também um casal de lésbicas entrevistado, mas é a excepção. Pessoalmente, pude confirmar esta realidade pois pouco a pouco tive conhecimento dela nas minhas viagens ao Brasil. Em 2014 assisti pela primeira vez a uma Gay Parade, mas não foi em nenhuma capital europeia, nem no Rio: foi em Madureira, um subúrbio muito distante do centro do Rio (para lá chegar tive de apanhar um comboio na Central do Brasil e fazer uma viagem de meia hora, se tanto). Era domingo e aproveitei para conhecer o centro de Madureira. As famílias passeavam nos parques públicos, mas ao cair da noite a animação colorida tomou conta da principal avenida. Foi uma espécie de carnaval baiano, com trios elétricos atraindo as multidões. A dada altura do documentário, uma das entrevistadas diz que na favela há menos preconceito do que na Vieira Souto (rua central de Ipanema). Não consigo imaginar nada de semelhante nos arredores das grandes cidades europeias, habitados por comunidades (imigrantes e outras) pouco tolerantes em relação à homossexualidade. Em suma, um documentário interessante mas pouco ambicioso em termos de cinema. Paris: Arlequin (04.2015) 2,5/5
