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21.9.21

Rebels of The Neon God (Tsai Ming-Liang, 1992)

Rebels of The Neon God (Tsai Ming-Liang, 1992)

À primeira obra Ming-Liang logo definiu o seu mundo muito próprio, povoado de seres solitários e muita água. Um jovem tenta vingar-se de outros jovens que danificaram o carro do seu pai. Mas o que ele tenta realmente é ter um laço com alguém, pois não tem amigos, desiste da escola e não comunica com os pais. Mas nem os pequenos ladrões de quem ele se vinga querem a sua companhia... Uma primeira obra já madura. Paris 09.2021 L'Archipel 4/5

3.1.21

Your Name Engraved Herein (Patrick Kuang-Hui Liu, 2020)

Este filme está a caminho de tornar-se um clássico do cinema gay, pelo menos no seu país de origem, Taiwan, onde o filme estreou em setembro (no resto do mundo a Netflix encarrega-se dá distribuição). A história passa-se quase por inteiro no final dos anos 80, quando o regime militar de Taiwan se abre um pouco. Vemos por exemplo o início das escolas mistas e a contestação pelos jovens do controlo militar das mesmas. Mas o que interessa é o caso de amor que surge naturalmente da amizade  entre dois rapazes adolescentes. E se a sociedade (as autoridades, os colegas) reage com violência e repressão a este amor masculino, a negação dos jovens a esse amor é ainda mais doloroso. 30 anos depois reencontram-se mas nem o amor foi esquecido nem desapareceu a incapacidade de lidar com ele. Um belo drama gay. VC 2020 Netflix 3,5/5

16.4.14

Tsai Ming-Liang em Portugal

 Rebels of the Neon God (1994), 1º filme
Inédito comercialmente em Portugal

 Viva o Amor / Vive l' Amour (1995), 2º filme
Leão de Ouro Veneza 1995
Inédito comercialmente em Portugal
Ciclo de Cinema dos Extremos do Mundo, Culturgest, em Lisboa, 2000
O Rio / The River (1997), 3º filme
Inédito comercialmente em Portugal?
The Hole / Dong (1998), 4º filme
Inédito comercialmente em Portugal
  Que horas são em Paris? (2001), 5º filme
Inédito comercialmente em Portugal
Estreia na Cinemateca Portuguesa a 21 de stembro de 2001
DVD Fnac 2012
Adeus, Dragon Inn / Bu San, 6º filme
Estreia em Portugal a 10 de março de 2005

O Sabor da Melancia (2005), 7º filme
Estreia em Portugal a 13 de Setembro de 2007

Não Quero Dormir Sozinho (2006), 9º filme
Inédito comercialmente em Portugal
DVD Atalanta, Coleção "Cinema do Mundo", 2007
Face / Visage (2009), 9º filme
Inédito comercialmente em Portugal
DVD Fnac 2013
Stray Dogs (2013), 10º filme
Inédito comercialmente em Portugal



OS DVDS

DVD 2012

DVD 2013

DVD 2005

DVD 2006

INICIATIVAS

Retrospetiva no Festival Gay e Lésbico de Lisboa 2001

Festival de Curtas Vila do Conde:
Exibição das longas-metragens What Time Is It There?, Goodbye Dragon Inn e The Wayward Cloud
The Skywalk is Gone (curta) ganhou o Grande Prémio de Ficção 2003 
Madam Butterfly (curta) venceu na categoria Ficção da Competição Internacional 2009

Goodbye, Dragon Inn (Tsai Ming-Liang, 2003)


O mais cinéfilo dos filmes de Tsai Ming-Liang? O realizou aposta num mínimo de ficção para dar vida a uma grande sala de cinema de Taipei que apresenta a sua última sessão, antes de fechar para sempre. O lugar é agora destinado ao engate ou à revisão nostálgica de clássicos do cinema chinês por espetadores com a idade desses filmes. O filme é belíssimo. Até nos projetos mais modestos Ming-Liang é grande.

Paris 2014 Cinemateca Francesa 4/5
Barcelona 2022 Filmoteca da Catalunha 4/5

Goodbye, Dragon Inn (Tsai Ming-Liang, 2003)
DVD Arte Editions 2010
DVDTECA

Inclui The Missing Bu Jian (2003), de Lee Kang-Sheng

3.4.14

Et là-bas quelle heure est-il? (2001)

Et là-bas quelle heure est-il? (2001) é, para mim, um dos melhores filmes deste realizador. A beleza da história e a beleza da narração são uma só. No seu estilo inconfundível, Ming-Liang dá-nos a ver três seres em sofrimento, em Taipei e em Paris. É questão de tempo, de descompasso horário entre uma e outra cidade, mas a solidão é a mesma. Comoveu-me em particular as cenas em Paris, com a turista asiática a arrastar a sua solidão por cafés e hotéis, tal como nos romances de Jean Rhys. Em Taipei, com a morte do pai, um jovem vendedor de relógios de rua passa a acertar todos os relógios públicos pela mesma hora (de Paris?) e a mãe, agora viúva, procura em qualquer ser vivo (um peixe, uma barata) a presença do marido. O humor nunca está longe nestas histórias profundamente tristes. Um filme apaixonante. 
Paris 2014 Cinemateca Francesa 5/5
Paris 2024 Saint-André-des-Arts 5/5
Filme de Tsai Ming-Liang

19.3.14

Stray Dogs (2013)

Filme de Tsai Ming-Liang
O último filme de Tsai Ming-Liang é o mais enigmático de todos os que conheço dele. É difícil resumir a história, que conta com várias elipses e cenas que parecem dar sentido ao filme no seu todo. Não há uma representação linear, cronológica, dos acontecimentos, e por vezes há momentos que relevam mais da fantasia e do delírio do protagonista. Que é, mais uma vez, Lee Kang-Cheng, um sem-abrigo que segura cartazes publicitários na rua (para venda de... apartamentos)  e cria sozinho dois filhos pequenos. Vivem numa tenda e passam fome. Com o tempo o cinema de Ming-Liang foi ganhando espessura no registo de crítica e denúncia da exclusão violenta que as sociedades capitalistas infligem a largas camadas da população. Mas o cinema deste realizador nunca deixou de privilegiar histórias pessoais que não podem ser reduzidas à representação de um grupo ou classe. E a segunda metade do filme força-nos a mergulhar na história dramática deste pai que fica sem os filhos e que antes ficara sem a mulher. E Ming-Liang assegura como sempre um acabamento formal magistral, embora pessoalmente tenha sentido falta de um certo lirismo que encontrei em outros filmes do realizador mas não neste. 
Paris 2014, Les 3 Luxembourg 4/5


All the Corners of The World (1989)

Tsai Ming-Liang no Festival de Roterdão
Um dos primeiros filmes de Tsai Ming-Liang, feito em vídeo para a televisão. Entre 1989 e 1991 ele escreveu o argumento de dez telefilmes e realizou oito deles.  All the Corners of The World (1989) é o retrato de uma família que se dedica à revenda de bilhetes de cinema (de sessões esgotadas, claro), uma família unida na busca da prosperidade, mas que hoje chamaríamos de disfuncional. É um filme muito interessante, porque nele encontramos cenas que depois vão aparecer nas ótimas longas-metragens para cinema dos anos 1990, mas sobretudo pelas diferenças relativamente ao que estava para vir. Aqui não encontramos as personagens solitárias dos filmes posteriores, pois temos uma família unida, solidária no seu interior, agressiva em relação ao exterior. As crianças e os jovens estão no centro deste filme, enquanto posteriormente Ming-Liang privilegiará os jovens adultos. E fala-se e grita-se muito neste filme, o que contrasta com o estilo conhecido do realizador de fazer filmes quase mudos. Bem interessante, pois. Paris 2014, Cinemateca Francesa 3/5

Madame Butterfly (2008)

Filme de Tsai Ming-Liang
Numa estação de autocarros em Kuala Lumpur, uma mulher retarda o seu regresso à terra para voltar a ver o namorado, que todavia não pretende encontrar-se com ela. Enquanto espera, esta madame Butterfly agarra-se à memória dos momentos passados com ele no hotel. Esta curta-metragem integra o projeto Twenty Puccini, do Lucca Film Festival. Paris 2014 Cinemateca Francesa 3,5/5

Walker (2012)

Filme de Tsai Ming-Liang
Uma curta-metragem em vídeo com Lee Kang-Cheng na pele de um monge que se passeia em Hong-Kong em slow motion. O resultado é hipnótico. A beleza está no ritmo lentíssimo do monge mas também na velocidade própria da grande cidade. Paris 2014 Cinemateca Francesa 2014

18.3.14

I Don't Want To Sleep Alone (2006)

O plano final do filme -
entre os mais belos que vi no cinema

Este filme tornou-se um dos meus preferidos de Tsai Ming-Liang. Digo tornou-se porque vi-o três vezes desde a estreia em França em 2007 e à terceira a minha admiração acentuou-se ainda mais. Não estreou nas salas portuguesas mas foi editado em DVD pela Lusomundo em 2007.
Neste filme, Tsai Ming-Liang continua a mostrar-nos a solidão, que é a condição de tantas pessoas nas sociedades contemporâneas, mas desta vez vai mais longe, pois escolhe como protagonista um sem-abrigo, um imigrante alienado que não fala sequer a língua local da cidade onde se passa a história. O filme começa com o seu espancamento por um grupo de homens que vivem de enganar e explorar os mais desprotegidos. Ele é recolhido e tratado por outro trabalhador que vive às margens da sociedade. A mise-en-scène de Ming-Liang é notável, pois em muitos planos o protagonista aparece à margem, como invisível aos olhos dos outros. Mas o filme é acima de tudo uma história de amor(es), pontuada pelas canções asiáticas mais belas que conheço. Amor entre o protagonista e as mulheres que vai conquistando e entre ele e o jovem que o traz à vida. Tudo isto é intensificado pelo estilo único do realizador, em que quase não há diálogos, em que apenas contam os gestos e as ações das personagens.
O final do filme (na foto) é arrebatador: um colchão com os três amantes, a flutuar na água (num edifício em ruínas), como uma ilha prometida.

irrupção da beleza onde menos se espera
I Don't Want To Sleep Alone (2006) 5/5
Cinémathèque Française 2014, Les 3 Luxembourg 2012, Publicis-Cinémas 2007

17.3.14

O Sabor da Melancia (Tsai Ming-Liang, 2004)

O Sabor da Melancia foi um dos três filmes de Tsai Ming-Liang que estrearam nas salas em Portugal, tendo outros dois estreado diretamente em DVD. Muito pouco para uma obra fundamental do cinema contemporâneo, ainda por cima com correspondências várias com o cinema de Pedro Costa.
Neste filme, Ming-Liang continua a explorar a temática da solidão e da incomunicabilidade entre os seres, mas agora com um grande peso da fantasia musical. Além disso, se bem que a dimensão erótica já tinha marcado presença em outros filmes, nunca como neste filme foi tão explícita e divertida (afinal uma das linhas do argumento diz respeito à filmagem de um filme pornográfico). O Sabor da Melancia (2004) VISTO FICM de Vila do Conde 2005 & Cinémathèque Française 2014....4/5

16.3.14

The Hole (Tsai Ming-Liang, 1998)

The Hole é uma comédia musical de Tsai Ming-Liang. Sim, comédia e musical, como não havia visto nos fimes anteriores deste realizador de Taiwan. Depois ele iria apurar essas duas vertentes no posterior The Wayward Cloud, o da melancia (2004). Penso que desde Jacques Demy que não vira números musicais cantados e dançados de forma tão graciosa no cinema. Foi, aliás, com este filme, que ouvi pela primeira vez músicas populares asiáticas lindíssimas. Ming-Liang veio depois a confirmar o acerto na revelação (para um público ocidental) de vozes e composições de Taiwan e da China nos filmes seguintes (inesquecível, por exemplo, a canção que encerra I Don't Want to Sleep Alone, de 2007). Quanto à comédia, na verdade já estava presente em outros filmes, como o anterior O Rio (1997). O cómico nestes filmes resulta do patético da vida solitária das personagens e das rotinas que elas inventam para preencher os seus dias. Haverá  outro realizador que tenha observado de forma tão obstinada a vida de personagens solitárias? Talvez Tati... E assim o cómico nasce de uma situação potencialmente triste. Veja-se Lee Kang-Cheng (na foto) chorando, depois de nos ter proporcionado as situações mais cómicas do filme às voltas com o buraco que abre o chão do seu apartamento e o tecto do da sua vizinha. Mas o buraco é também o elemento que vai permitir o encontro entre os dois vizinhos e pôr fim à sua solidão. Excelente filme.
The Hole (1998)
Televisão (VHS) 2004
Cinemateca Francesa 2014
4.5/5

15.3.14

O Rio (1997)

O Rio (1997) é um dos grandes filmes de Tsai Ming-Liang, tendo sido galardoado com o Urso de Prata em Berlim. É (mais) um retrato da absoluta solidão que assola as cidades contemporâneas. Neste filme, nem a família redime esse flagelo. Um pai, uma mãe e o filho, cada um à sua maneira procura o amor algures, longe da família. A casa da família, à beira da inundação irreversível, é um lugar cada vez mais inabitável para os três protagonistas. O pai recorre às saunas gay, a mãe tem um amante que a rejeita e o filho entre um encontro fortuito com uma antiga amiga e uma relação numa sauna gay, recebe as intensas experiências físicas da misteriosa doença que lhe ataca a nuca.
Estes são seres sonâmbulos, que buscam o amor onde quer que ele possa acontecer, sem qualquer noção de pertença ao espaço físico ou social que devia ser o deles. É uma forma de alienação típica dos grandes centros urbanos e dos protagonistas dos movimentos migratórios que perdem as raizes mas não alcançam outras.
Dixit Ming-Liang falando da sua experiência:  "I feel I belong neither to Taiwan nor to Malaysia. In a sense, I can go anywhere I want and fit in, but I never feel that sense of belonging."
Porto 1998 Casa das Artes
Porto 2001 Passos Manuel
Paris 2014 Cinémathèque 
(5/5)