Peter Greenaway ocupa um lugar especial na minha memória cinéfila. Na passagem dos anos 80 para os 90 era um daqueles realizadores que regularmente me surpreendiam e fascinavam com obras originais. Lembro-me de que também vi uma espécie de integral das suas curtas e médias-metragens numa das primeiras edições do Festival de Curtas de Vila do Conde. Mas depois de The Pillow Book (1996), um dos meus preferidos dele, quase que lhe perdi o rasto. O último que vi foi em 2007, Nightwatching, sobre a obra-prima de Rembrandt. Agora vi Goltzius and the Pelican Company (2012), que se estreia com algum atraso em França e de forma quase confidencial.
Goltzius and the Pelican Company é uma ficção complexa, barroca, visualmente atraente, pedagógica, sobre Goltzius, artista holandês do século XVII. Com o fim de obter patrocínio para publicar livros ilustrados, Goltzius decide apresentar com a Pelikan Company, perante o potencial patrocinador, episódios eróticos bíblicos. Então temos uma sucessão de dramatizações desses episódios por todos nós conhecidos (Adão e Eva, Sansão e Dalila, Salomé, entre outros) em que a nudez e o sexo são uma constante. Tenho de reconhecer que Greenaway filma o corpo humano como poucos, parecendo querer rivalizar com os pintores da época descrita. Pormenor interessante: o púbis feminino (o mesmo acontece com o corpo masculino aliás) aparece sempre depilado, nas mulheres jovens e nas menos jovens, como na pintura contemporânea.
Nos filmes deste realizador (como em Lars von Trier...) o corpo é muitas vezes maltratado (castigado, esquartejado, degustado), porque destrói a ordem social e a autoridade. Mas a câmara de Greenaway não engana: o corpo humano é fascinante e deve ser celebrado à altura desse fascínio. Arlequin, Paris 2014 (3,5/5)
