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23.3.22

Family and Friends (Anita Brookner, 1985)

Fiquei fã de Anita Brookner com a leitura deste livro dos inícios da sua carreira. É o retrato de uma família, centrado em Sofka e nos seus quatro filhos. Uma família da burguesia inglesa. A escrita de Brookner é soberba. Paris 2022 4,5/5

5.12.19

Arlington Park (Rachel Cusk, 2006)

Arlington Park, arredores de Londres, algumas mulheres no seu dia a dia, entre a escola dos filhos, o cabeleireiro, as compras e os jantares que oferecem aos amigos nas suas casas de classe média. Mas o discurso (mental e verbal) destas mulheres não segue o quadro traçado acima que lembra o eterno feminino. Elas são críticas e estão alertas à armadilha que lhes estende o seu quotidiano de seres passivos, à espera dos filhos e do marido. Trata-se de um dos livros mais feministas que já li, um pouco na linha de Virginia Wolf (Mrs Dalloway). Vila do Conde ed. faber and faber 4/5

15.8.19

Mary Shelley. La jeune fille et le monstre (Cathy Bernheim, 1997)

Toda a gente conhece Frankenstein, um dos mitos mais duradouros da cultura ocidental. Tal como aqueles cantores pop que ficam para sempre associados a um único hit, Mary Shelley ganhou a eternidade através da sua criatura, um monstro que não tem nome, mas ficou conhecido pelo nome do cientista que o criou (Frankenstein). Este romance é uma das grandes obras da literatura de ficção-científica e foi escrito depois de um serão entre Mary e Percy Shelley, e o amigo Byron, na Suíça, dedicado à invenção de histórias de terror, na linha da literatura gótica que estava em voga na altura. Parece que os restantes livros de Mary Shelley não suportaram bem a passagem dos séculos. A autora desta boa biografia destaca ainda The Last Man  entre os romances de Shelley. Mas as surpresas da biografia relacionam-se sobretudo com a personalidade e a vida de Mary. A mãe e o pai eram escritores conhecidos por defenderem e divulgaram ideias modernas próximas do iluminismo francês e escreveram livros sobre os direitos dos homens e, mais especificamente, das mulheres. Mary Shelley fugiu com o amante Percy Shelley quando tinha 15 ou 16 anos, mas Percy era casado e tinha filhos. A fuga para o continente era o passo mais óbvio. Durante anos viajaram, sobretudo em Itália, Suíça e França e o seu quotidano era feito de intermináveis leituras e outras ocupações culturais. A lista de obras que liam é deveras impressionante, parece que nada foi esquecido entre as obras de referência da literatura ocidental. Cathy Bernheim insiste, e bem, na  descrição do estatuto da mulher no tempo do pré-romantismo. A irmã de Mary e a mulher de Shelley suicidam-se e torna-se claro que a posição insustentável em que ambas se encontravam por serem mulheres muito contribuiu para esse desfecho trágico. Mary teve um destino de mulher excecional. Ainda menor foge com o amante (casado com outra), vive do seu trabalho de escritora, foi mãe várias vezes mas apenas um rapaz conseguiu chegar à idade adulta. Enquanto viúva, tratou de divulgar a obra do marido, Percy B. Shelley, apesar da oposição e da chantagem exercida pelo sogro e avô do seu filho. Um livro cheio de surpresas que vai muito além do poder do mito Frankenstein. Vila do conde 3/5

5.5.19

Somerset Maugham (Anthony Curtis, 1977)

Somerset Maugham é um dos mais célebres escritores do século 20. Mas hoje está um pouco esquecido e são muito poucas as obras que resistiram ao tempo: alguns contos e um ou outro romance (Of Human Bondage, Razor's Edge). Foi um escritor prolífico, disciplinado e profissional, com livros publicados todos os anos. Romances, contos, teatro e ensaios (livros de viagens). Foi muito adaptado ao cinema (ainda recentemente o filme As Paixões de Júlia baseou-se no seu romance Theatre). Foi agente secreto e foi um grande viajante. Muitas das suas obras inspiram-se nas viagens que fez, quase sempre acompanhado pelo seu amigo Gerald Haxton, com quem viveu numa vivenda em Cap Ferrat até à morte deste . Antes de Haxton, passou por um casamento de dez anos. Muito popular, foi quase ignorado pela intelligentsia londrina, em particular o círculo de bloomsbury. Esta biografia escrita por Anthony Curtis é de 1977 e a narrativa da vida privada de Maugham ressente-se dos interditos da época. Praticamente não é mencionada a homossexualidade do escritor e a natureza da relação com Haxton é pouco mais do que sugerida. O melhor do livro são as imensas e excelentes fotos, fazendo do livro quase uma fotobiografia. VC 4/5

12.3.18

Master of the Moor (Ruth Rendell, 1982)

Pois é. Finalmente leio uma obra da grande Ruth Rendell. O Senhor da Charneca (PEA «Clube do Crime» 2006) é um romance policial passado numa pequena povoação inglesa dominada pela charneca, que é em si uma personagem. Várias mulheres são encontradas mortas na charneca e o principal suspeito, num primeiro momento, é o protagonista, que é uma autoridade da charneca, escrevendo sobre a mesma num jornal local. Ele parece gostar mais da paisagem do que da própria mulher ou de que qualquer outra pessoa. Na charneca ele costumava brincar com um amigo de juventude, e juntos exploraram alguns lugares inacessíveis, aventuras que o marcaram a ponto de a saudade do amigo surgir com uma dimensão homoafetiva muito clara. Aliás, o romance  tem na sugestiva descrição psicológica das personagens uma das suas melhores qualidades. Paris 2018:  3,5/5

12.8.17

Oranges Are Not the Only Fruit (Jeanette Winterson, 1985)

As Laranjas não são o Único Fruto (Bico de Pena, 2006) é praticamente um clássico moderno da literatura britânica. Este romance de 1985 tornou a sua autora uma celebridade no mundo das letras e na comunidade LGBT. Oranges... narra o coming-of-age de uma rapariga lésbica no seio de uma comunidade evangélica de província, na qual a mãe e ela própria têm um trabalho ativo de divulgação da mensagem religiosa. Ainda menina, Jeanette (nome da protagonista e da autora) teve uma integração escolar tardia e difícil, em virtude dos valores religiosos da sua mãe. Mais tarde, adolescente, a descoberta do amor físico com mulheres trouxe-lhe o desprezo da mãe e dos fieis da sua igreja e ela é obrigada a abandonar o lar. O livro é relativamente original na abordagem do tema da formação do indivíduo, que encontramos em todas as literaturas modernas. Mas a opção, cara aos escritores ambiciosos nos anos 80, de interpolar na narrativa principal breves fábulas com heróis do ciclo arturiano (entre outros), faz o interesse do romance baixar consideravelmente. Nas areias das Caxinas 3/5

6.8.17

Obstinate Heart (Valerie Grosvenor Myer, 1997)

Jane Austen teve uma vida quase banal, igual a tantas mulheres da pequena nobreza profissional de província (o pai era padre) que ficaram solteiras e consequentemente dependentes da família. Mas Austen teve um talento e teve (tem) um destino extraordinários, ligados à escrita. A sua carreira durou cerca de cinco anos; escreveu e publicou alguns romances (outros foram publicados a título póstumo) que alcançaram o respeito dos críticos e o público leitor mais alargado da época. Foi desde o primeiro romance publicado (Sense and Sensibility, 1811) uma autora de best-sellers. Esta biografia é boa, mas não é extraordinária como outras que li. Por vezes, há informação a mais sobre as questões familiares mas em contrapartida os romances são pouco comentados e não introduzidos ao leitor. VC 3,5/5

24.7.17

Persuasion (Jane Austen, 1818)

Jane Austen foi uma pioneira das telenovelas. Persuasão narra o amor de Anne Elliot, da pequena nobreza rural, pelo capitão Frederick, da Marinha e de fortuna recente adquirida na atividade marítima. Mas a maior parte do romance, o último de Austen, trata das manobras familiares para casar os filhos evitando a descida social. O dinheiro e o estatuto social são a grande obsessão das várias famílias que se cruzam neste romance iluminado pelas duas almas gémeas que são Anne e Frederick. Primeira obra de Austen que leio. Praia das Caxinas 4/5

2.8.16

Enquête sur Sherlock Holmes (1997)

Ensaio de Bernard Oudin
Se há personagem literária que merece uma biografia essa é Sherlock Holmes, criado por Arthur Conan Doyle em 1887. Muitos pensaram que Sherlock realmente existia, foram criados em todo o mundo clubes em seu nome, e são incontáveis os filmes e as séries televisivas que o têm como personagem principal. VC 2016 3/5

30.4.16

Paixão em Florença (Somerset Maugham, 1941)

Penso que Paixão em Florença ou, no original, Up at The Villa, é o primeiro livro que leio de W. Somerset Maugham. É um romance muito breve, ou uma novela, sobre a hesitação amorosa de uma jovem viúva da alta sociedade europeia. Ela habita há meses uma villa em Florença de uns amigos americanos ricos e acaba de receber uma proposta de casamento de um amigo da família, bastante mais velho do que ela e alto funcionário do aparelho colonialista britânico na Índia. Enquanto pensa na resposta ao pedido, envolve-se com dois homens, um dos quais se suicida no quarto dela. Este homem era um refugiado sem papéis, fugido da Áustria ocupada por Hitler. O mais fascinante nesta novela é este pormenor biográfico da vítima que faz entrar o pesadelo da Guerra no cenário idílico e snob que os ricos reproduzem com festas, receções e jantares. O comportamento da elite é deplorável e abominável, desfazendo-se de um corpo (do suicida) para não macular a sua reputação e evitar o escândalo. Um excelente livro. Madrid 4/5