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31.7.24
13.7.23
O Amor de Mítia (1924)
MÍTINA LIUBOV
Novela de Ivan BÚNIN
Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra
Relógio D'Água "Clássicos", janeiro de 2004
Prefácio de Filipe Guerra
Leitura 2023 PV 5/5
25.10.22
TOLSTOI
A Morte de Ivan Ilitch (Novela, 1886)
Novela de Lev Tolstoi
Ivan Ilitch é um alto funcionário público que sabe que a morte o escolherá em breve. Ela instala-se pouco a pouco na sua vida, apavorando os últimos anos do infeliz funcionário. Trata-se de uma novela perfeita, com aquele humor saboroso de que os escritores russos tinham o segredo. Porto 10.2022 BMPV 5/5
BIBLIOTECA:
TOLSTOI[5] Guerra e Paz (1869)
Anna Karénina (1877)
A Morte de Ivan Ilitch (1886 Folio 2003)
Maître et serviteur (1894 Folio 2003)
Hadji Mourad (1903)
Polikuchka, o Enforcado
18.5.21
Continental Films (2017)
Ensaio de Christine Leteux
La Tour verte 2017
BIBLIOTECA
Continental Films foi uma produtora francesa de filmes que existiu durante a segunda guerra e que produziu alguns clássicos do cinema francês, deu trabalho a realizadores e atores consagrados dos anos 30 e apostou em realizadores estreantes que iriam marcar o cinema francês do pós-guerra. Porém, a Continental era financiada e dirigida pelos ocupantes alemães e a sua atividade era e é bem problemática no mundo do cinema. Para a história da colaboração francesa ficou a viagem que alguns profissionais do cinema da Continental fizeram à Alemanha nazi, tendo sido, na sua maioria, obrigados a fazê-la. Aliás muitos dos contratos da produtora com esses profissionais foram feitos com recurso à chantagem. Este estudo é brilhante e muito elucidativo do período abordado. Melun 2021 5/5
24.7.19
Daphne du MAURIER
Rebecca (1938)
Romance de Daphne Du Maurier
Li Rebeca logo a seguir a Jane Eyre (Charlotte Bronte), dois livros que queria ler há pelo menos 20 anos... Os livros têm vários pontos em comum, como a protagonista, que é uma mulher de baixa classe que se apaixona (e casa) por um homem rico. Mr. de Winter é viúvo (Rebeca), e Mr. Rochester é casado com uma mulher louca de que ninguém tem conhecimento (Jane Eyre). O novo casal não será feliz enquanto não matar a primeira mulher. E o recomeço da vida de ambos os casais é assinalado pelo incêndio da mansão onde os homens e a primeira mulher viveram. Manderley é a famosa casa de Rebeca de Winter (haverá casa mais célebre na literatura?) e Thornfield é a casa de Mr. Rochester: as novas Mrs. de Winter e Mrs. Rochester nunca possuiriam a casa das antecessoras. Rebeca é uma obra-prima de suspense psicológico, onde uma personagem já morta é o motor de toda a trama. Um dos melhores romances que li até hoje. Li a edição da Livros do Brasil (2001) com tradução de Alda Rodrigues. Praia das Caxinas 2019 5/5
Daphne du Maurieré autora de Frenchman's Creek (1941), um belo romance de amor e aventuras. Dona St Columb, a protagonista, é uma aristocrata inglesa do século 17 que regressa à sua casa à beira mar com os dois filhos, desejosa de abandonar a vida agitada de Londres, onde criou fama de mulher emancipada e dada à vida boémia. Mas junto ao mar conhecerá o Francês, um pirata da Bretanha, que se dedica a pilhar barcos e as casas dos ricos locais e por isso ganhará uma reputação terrível. Com ele Dona viverá a sua maior aventura (participará, travestida de rapaz, de um ataque aos seus vizinhos aristocratas) e a sua maior história de amor. A narrativa e o estilo de Daphne du Maurier são esplêndidos e justificam que a autora continue a ser lida e apreciada como o foi no seu tempo de vida. O humor dos diálogos e das situações é constante e é bem explorado o tema das ideias feitas sobre ingleses e franceses, que ainda hoje perduram. Li a versão francesa L'Aventure vient de la mer (Le Livre de Poche, 1981). Salvador, Bahia 2019 4,5/5
BIBLIOTECA:
Hungry Hill (1944fr)
Manderley For Ever (2015)
31.1.18
André Derain 1904 - 1914. La décennie radicale (2018)
Fiz bem em não perder esta exposição, apresentada no centro Pompidou, vista nos últimos dias. Pouco me dizia o nome de Derain. Acabei por ficar fascinado por este pintor que era posto nos píncaros da pintura francesa na primeira metade do século e depois tornou-se um nome secundário, de certo modo. Além da exposição, li o livrinho da Gallimard, coleção Découvertes, dedicado ao pintor. Derain foi um dos grandes fauves, passou pelo cubismo e outros ismos da época e encontrou uma forma (neo)clássica com obras tão interessantes quanto pouco conhecidas. Paris 2018 Pompidou 5/5
22.9.17
Gauguin (1989)
Mais um livrinho da coleção Découvertes da Gallimard que me dá a conhecer a vida e a obra de um grande pintor que, como outros da mesma época, passou miséria, fez a família passar miséria, foi incompreendido, abandonou mulher, filhos e amigos para se exilar no país da Arte, para se dedicar integralmente ao trabalho e à concretização de obra genial que mudou a forma de sentirmos o mundo. As cores de Gauguin, as formas de Gauguin, ficam connosco, sobretudo as que o inspiraram a vivência no Tahiti. Venham agora o biopic (já nas salas) e a exposição prevista para este outono parisiense. Vila do Conde 2017: 5/5
Rubens (Taschen)
Com este precioso livro da Taschen (feito para as massas) fiquei a perceber melhor o que eram os grandes ateliers de onde saíam obras em catadupa assinada por um mestre da moda. E poucos terão havido como Rubens, cujos ateliers formaram grandes pintores e promoveram o trabalho especializado: um pintava flores, outro as formas humanas, outro os animais mortos... Nunca prestei atenção a Rubens, mas agora alguns dos seus quadros fascinam-me. Não se conhecendo o contexto em que foram produzidos, nem imaginamos a ousadia (estética, política) que certos quadros encerram, mas que na superfície (da nossa ignorância) nos parecem académicos e sem vida. Vila do Conde 2017: 5/5
15.2.17
Pissarro. Patriarche des impressionistes (2012)
Pissarro nasceu nas Antilhas dinamarquesas, formou-se em França e pintou durante um tempo na Venezuela. Tudo durante a sua juventude. Quando se estabeleceu em França, em adulto, e constituiu família, não mais saiu do país a não ser para visitar os filhos que escolheram Londres para morar. Até aos 40 anos viveu de uma pensão dos pais, pouco a pouco foi ganhando notoriedade, mas sempre com dificuldades para sustentar a família numerosa. Viveu em várias pequenas localidades perto de Paris, até comprar casa em Eragny. Pintou sobretudo a natureza, as paisagens rurais, com ou sem a figura humana. No final da vida, inclusive por motivos de saúde, pintou várias séries de vistas urbanas, pintadas a partir da janela dos quartos que arrendava para o efeito. Pintou sobretudo Paris e Rouen. Participou em vários salons oficiais, mas também nos salons dos recusados e mais tarde dos impressionistas. Aderiu durante um tempo ao neo-impressionismo de Signac e Seurat. Um artista exemplar, pela solidariedade que revelou com os amigos e colegas pintores, e pela constante busca de novas formas de expressão. Belo livro. Vila do Conde 2017: 5/5
6.9.14
Seize the Day (Bellow, 1956)
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| 2014 |
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| 1986 |
Agarra o Dia, de Saul Bellow, foi uma obra que muito me marcou quando o li há cerca de 20 anos na edição da Fragmentos. Nunca esqueci a história de um homem sem qualidades que não vê a luz ao fundo do túnel em que se tornou a sua vida. Na impressionante cena final, chora no funeral de alguém que não conhece, mas todos o tomam por uma familiar do defunto. Todo o génio de Bellow está aqui neste breve romance. Póvoa de Varzim 5/5
1.2.14
Marina TSVETAEVA
Marina Tsvetaeva, eterna rebelde.
Adoro ler biografias. Geralmente leio biografias pouco extensas, para ficar com uma ideia do que foi a vida de determinada personalidade histórica que me interessa por algum motivo, e raras vezes leio biografias-calhamaços, que esmiúçam o mínimo suspiro do biografado. Mas devo dizer que quando li destas biografias de longo fôlego acabei por gostar muito. Lembro-me, por exemplo, do caso de Jean Giraudoux que, não fosse a ambição do biógrafo, não tinha conhecido o papel que o grande dramaturgo francês teve na instrução do exército português no durante a primeira guerra mundial e os escritos que deixou sobre essa experiência. Lembro-me também da leitura de Glória, a genial biografia que Vasco Pulido Valente escreveu sobre a ascensão e a queda de um político português do século XIX. Neste caso, todos os louros vão para o biógrafo. Geralmente um biógrafo não é um grande escritor ou mesmo ensaísta. Há o caso célebre de Stefan Zweig, excelente romancista que foi igualmente um autor de biografias que ainda hoje são reeditadas. E houve também Henri Troyat, grande biógrafo e bom romancista popular, mas de qualidade (foi membro da Académie Française e ganhou o Goncourt por L'Araigne, em 1938). Penso, aliás, que a sua obra romanesca já está a ser esquecida, mas as suas biografias podem ler-se com proveito. Tendo nascido em Moscovo em 1911, Troyat passou quase toda a sua em vida em França. Escreveu sobretudo biografias de escritores russos e franceses. Já tinha lido há uns anos a biografia de Tourgueniev e haja saúde hei-de ler as biografias que ele dedicou aos grandes escritores russos do século XIX.
Adoro ler biografias. Geralmente leio biografias pouco extensas, para ficar com uma ideia do que foi a vida de determinada personalidade histórica que me interessa por algum motivo, e raras vezes leio biografias-calhamaços, que esmiúçam o mínimo suspiro do biografado. Mas devo dizer que quando li destas biografias de longo fôlego acabei por gostar muito. Lembro-me, por exemplo, do caso de Jean Giraudoux que, não fosse a ambição do biógrafo, não tinha conhecido o papel que o grande dramaturgo francês teve na instrução do exército português no durante a primeira guerra mundial e os escritos que deixou sobre essa experiência. Lembro-me também da leitura de Glória, a genial biografia que Vasco Pulido Valente escreveu sobre a ascensão e a queda de um político português do século XIX. Neste caso, todos os louros vão para o biógrafo. Geralmente um biógrafo não é um grande escritor ou mesmo ensaísta. Há o caso célebre de Stefan Zweig, excelente romancista que foi igualmente um autor de biografias que ainda hoje são reeditadas. E houve também Henri Troyat, grande biógrafo e bom romancista popular, mas de qualidade (foi membro da Académie Française e ganhou o Goncourt por L'Araigne, em 1938). Penso, aliás, que a sua obra romanesca já está a ser esquecida, mas as suas biografias podem ler-se com proveito. Tendo nascido em Moscovo em 1911, Troyat passou quase toda a sua em vida em França. Escreveu sobretudo biografias de escritores russos e franceses. Já tinha lido há uns anos a biografia de Tourgueniev e haja saúde hei-de ler as biografias que ele dedicou aos grandes escritores russos do século XIX.
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Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée, intitulou assim Henri Troyat a biografia que escreveu nos anos 90 sobre a célebre poetisa russa. Marina Tsvetaeva (1894-1941) pertencia à elite intelectual da Rússia de fins do século XIX, pois o pai dirigiu e chegou a fundar um museu de belas artes em 1912, cuja inauguração teve a presença do Tsar. Marina, até ao tempo da Revolução soviética, gozou de uma boa situação material, o que assegurou a sua independência em todos os domínios. Teve uma educação (línguas, música) esmerada e desenvolveu uma personalidade apaixonada e com agudo espírito crítico. Antes da maioridade, viajou sozinha até Paris, o que me deixou perplexo, pois ainda hoje muitas mulheres adultas não se atrevem a fazer uma viagem sozinhas digamos, ao Brasil. Casou-se cedo com Serge Efron e nunca desfez o casamento, apesar das suas ardentes paixões epistolares e não apenas epistolares com promissores (ou consagrados) poetas. Teve uma filha em 1912, ano em que casou. A poesia de Marina foi reconhecida logo ao primeiro livro publicado, Album du soir, em 1910. Nesse ano, ela e a irmã viajaram sozinhas para estarem presentes no enterro nacional de Tolstoi, na datcha Iasnaia Poliana do grande Leão. Para além de Tolstoi, Puchkine e Gogol foram outras referências marcantes na vida espiritual de Marina.
Marina, nesses anos preparatórios da Revolução, vai brilhar no meio literário russo, participando em muitas sessões de leitura de poesia e conhecendo quase todos os grandes nomes desse período excepcional da cultura russa. Mas chega a Revolução e tudo se desfaz. O marido junta-se aos Brancos, que lutam contra os bolcheviques, Marina fica em Moscovo, um tanto indiferente ao que se passava à sua volta. No entanto, não só Marina assiste ao desaparecimento (físico) de grandes nomes da cultura russa com o governo dos bolcheviques, como todo a sua segurança material desaparece, pois os bens e o dinheiro passam agora todo para o Estado soviético. Vivendo uma situação cada vez mais insustentável, pede e consegue autorização oficial para sair do país.
Começa o exílio em 1922, primeiro em Praga, depois em Paris (1925), onde ficará durante quase 20 anos. O relato da sua vida na comunidade russa parisiense nos anos 20 e 30 é a parte mais impressionante do livro, talvez só sendo superada pelo período final na Rússia que a levou ao suicídio.
Em Paris, tal como a maioria dos russos imigrados, Marina vive fechada na comunidade, que tem uma imprensa e uma vida cultural notável mas pouco permeável à vida francesa. Marina leva esse padrão à caricatura. Apesar de dominar a língua francesa, praticamente só lê em russo e não tem relações com franceses, apesar da sua fama de grande poetisa russa (e do prestígio poético dos russos, tendo Ivan Bounine recebido o prémio Nobel em 1933). Marina apenas sonha com a sua Rússia, apesar de quase todas as notícias que de lá chegam serem desapontantes.
Entretanto, o seu marido evolui politicamente, passando pouco a pouco para o lado dos bolcheviques, chegando mesmo a participar no recrutamento de russos emigrados que quisessem regressar à União Soviética. Começa a nascer e a crescer com força em Serge Efron e na filha deles Ariadna o projeto de regresso à Rússia. Marina é muito céptica, e afirma mesmo que na Rússia soviética será impedida de escrever.
O isolamento da família de Marina em Paris é cada vez mais uma realidade e as posições políticas que os russos de Paris lêem nos poemas e noutros escritos de Marina afastam-na de quase todos. Durante toda a estadia em Paris (que Marina sempre viveu como passageira) Marina viveu de forma absolutamente miserável, muitas vezes vivendo da solidariedade material dos poucos amigos e admiradores que lhe restavam.
Com a guerra entre a Alemanha (que Marina adorava, e cuja língua e literatura conhecia bem) e a Rússia, Marina resolve partir para a terra natal, para onde já tinham ido aliás o marido e a filha. Marina chega à Rússia em plena guerra e tudo corre mal: o marido e depois a filha são levados pela polícia e Marina deixa de ter notícias deles (ele é fuzilado em 1941, a filha será reabilitada em 1955), e ela vive no terror de ter o mesmo destino juntamente com o filho mais novo. O clima de suspeição e medo abafa tudo à sua volta e em breve, com o bombardeamento de Moscovo, exila-se no campo com o filho. Mas nos primeiros dias da sua instalação num cabana miserável, decide que o melhor será não insistir em viver e mata-se.
Henri Troyat não precisa de forçar o pathos pois os acontecimentos vividos por Marina Tsvetaeva são de tal modo eloquentes que a sua simples enumeração produz no (neste) leitor uma angústia derivada da antevisão do desenlace final.
Podemos ler uma boa biografia, e de razoável extensão, e no entanto permanece o mistério do sentido da vida do biografado. É o que acontece com Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée. As interpretações que Troyat vai tecendo sobre a ação e a obra de Matina são justas e inteligentes, mesmo assim, ficamos perplexos perante o destino desta mulher e da sua família.
Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée: uma leitura marcante para abrir o ano. Paris 02.2014 (5/5)
Marina, nesses anos preparatórios da Revolução, vai brilhar no meio literário russo, participando em muitas sessões de leitura de poesia e conhecendo quase todos os grandes nomes desse período excepcional da cultura russa. Mas chega a Revolução e tudo se desfaz. O marido junta-se aos Brancos, que lutam contra os bolcheviques, Marina fica em Moscovo, um tanto indiferente ao que se passava à sua volta. No entanto, não só Marina assiste ao desaparecimento (físico) de grandes nomes da cultura russa com o governo dos bolcheviques, como todo a sua segurança material desaparece, pois os bens e o dinheiro passam agora todo para o Estado soviético. Vivendo uma situação cada vez mais insustentável, pede e consegue autorização oficial para sair do país.
Começa o exílio em 1922, primeiro em Praga, depois em Paris (1925), onde ficará durante quase 20 anos. O relato da sua vida na comunidade russa parisiense nos anos 20 e 30 é a parte mais impressionante do livro, talvez só sendo superada pelo período final na Rússia que a levou ao suicídio.
Em Paris, tal como a maioria dos russos imigrados, Marina vive fechada na comunidade, que tem uma imprensa e uma vida cultural notável mas pouco permeável à vida francesa. Marina leva esse padrão à caricatura. Apesar de dominar a língua francesa, praticamente só lê em russo e não tem relações com franceses, apesar da sua fama de grande poetisa russa (e do prestígio poético dos russos, tendo Ivan Bounine recebido o prémio Nobel em 1933). Marina apenas sonha com a sua Rússia, apesar de quase todas as notícias que de lá chegam serem desapontantes.
Entretanto, o seu marido evolui politicamente, passando pouco a pouco para o lado dos bolcheviques, chegando mesmo a participar no recrutamento de russos emigrados que quisessem regressar à União Soviética. Começa a nascer e a crescer com força em Serge Efron e na filha deles Ariadna o projeto de regresso à Rússia. Marina é muito céptica, e afirma mesmo que na Rússia soviética será impedida de escrever.
O isolamento da família de Marina em Paris é cada vez mais uma realidade e as posições políticas que os russos de Paris lêem nos poemas e noutros escritos de Marina afastam-na de quase todos. Durante toda a estadia em Paris (que Marina sempre viveu como passageira) Marina viveu de forma absolutamente miserável, muitas vezes vivendo da solidariedade material dos poucos amigos e admiradores que lhe restavam.
Com a guerra entre a Alemanha (que Marina adorava, e cuja língua e literatura conhecia bem) e a Rússia, Marina resolve partir para a terra natal, para onde já tinham ido aliás o marido e a filha. Marina chega à Rússia em plena guerra e tudo corre mal: o marido e depois a filha são levados pela polícia e Marina deixa de ter notícias deles (ele é fuzilado em 1941, a filha será reabilitada em 1955), e ela vive no terror de ter o mesmo destino juntamente com o filho mais novo. O clima de suspeição e medo abafa tudo à sua volta e em breve, com o bombardeamento de Moscovo, exila-se no campo com o filho. Mas nos primeiros dias da sua instalação num cabana miserável, decide que o melhor será não insistir em viver e mata-se.
Henri Troyat não precisa de forçar o pathos pois os acontecimentos vividos por Marina Tsvetaeva são de tal modo eloquentes que a sua simples enumeração produz no (neste) leitor uma angústia derivada da antevisão do desenlace final.
Podemos ler uma boa biografia, e de razoável extensão, e no entanto permanece o mistério do sentido da vida do biografado. É o que acontece com Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée. As interpretações que Troyat vai tecendo sobre a ação e a obra de Matina são justas e inteligentes, mesmo assim, ficamos perplexos perante o destino desta mulher e da sua família.
Marina Tsvetaeva, l'eternelle insurgée: uma leitura marcante para abrir o ano. Paris 02.2014 (5/5)
MARINA TSVETAEVA, COMMENT ÇA VA LA VIE?
Ensaio de Linda Lê
Ed. Jean-Michel Place-poésie 2002
BIBLIOTECA
Leituras 2024
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