Este documentário é empolgante. São Paulo em Hi-Fi trata da noite gay paulistana entre o final dos anos 60 até ao final dos anos 80. Uma época em que os gays e os transsexuais ganharam visibilidade na sociedade brasileira e foram um dos principais protagonistas da noite. Foi com a explosão das boites e bares gay que a luta pelos direitos da população LGBT começou. A resenha da noite gay nos jornais e nas publicações especializadas abriu o debate sobre a diversidade sexual como até então não tinha ocorrido. O documentário é rico em imagens dos shows nessas boites e os protagonistas eram os travestis. Mas não era apenas o que se passava no interior das boites que contava, até porque muitos não tinham acesso a elas. As casas noturnas atraíam muitas pessoas, heterossexuais mas sobretudo homossexuais, que apenas passavam para ver quem por lá andava e para o engate, obviamente. Há testemunhos impagáveis de humor e todos são na verdade pertinentes. O filme recebeu justamente o prémio do público do Queer Cinema de Lisboa em 2014. Paris Arlequin 4/5
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30.4.26
Favela Gay (Rodrigo Felha, 2014)
Documentário de Rodrigo Felha
Este documentário encerrou o 17° Festival du cinéma brésilien de Paris, em 2015. A sala estava cheia, certamente pela temática, que naturalmente atrai a comunidade LGBT parisiense. Aliás, nesse ano o festival teve uma presença significativa de filmes de temática gay: Castanha (sobre um drag queen da noite de Porto Alegre), o maravilhoso Hoje Quero Voltar Sozinho (ficção sobre a descoberta do amor entre adolescentes, um deles cego), Olho Nu (sobre Ney Matogrosso), o conhecido O Beijo da Mulher Aranha e o filme de abertura Trinta (sobre um ex-bailarino do Teatro Municipal do Rio que revolucionou os desfiles de samba). Favela Gay utiliza um dispositivo simples mas eficaz: muitos grandes planos sobre os gays assumidos e que conquistaram um lugar ao sol nas favelas onde nasceram e sempre viveram. Que personagens tão interessantes! Contam o seu percurso de rejeição familiar e da comunidade a que pertencem, mas sobretudo a sua vitória sobre o machismo e o preconceito reinante nas comunidades/favelas do Rio. A meu ver o filme perde muito ao privilegiar os travestis, que é a face mais "folclórica" do mundo gay, na favela ou fora dela. Há também um casal de lésbicas entrevistado, mas é a excepção. Pessoalmente, pude confirmar esta realidade pois pouco a pouco tive conhecimento dela nas minhas viagens ao Brasil. Em 2014 assisti pela primeira vez a uma Gay Parade, mas não foi em nenhuma capital europeia, nem no Rio: foi em Madureira, um subúrbio muito distante do centro do Rio (para lá chegar tive de apanhar um comboio na Central do Brasil e fazer uma viagem de meia hora, se tanto). Era domingo e aproveitei para conhecer o centro de Madureira. As famílias passeavam nos parques públicos, mas ao cair da noite a animação colorida tomou conta da principal avenida. Foi uma espécie de carnaval baiano, com trios elétricos atraindo as multidões. A dada altura do documentário, uma das entrevistadas diz que na favela há menos preconceito do que na Vieira Souto (rua central de Ipanema). Não consigo imaginar nada de semelhante nos arredores das grandes cidades europeias, habitados por comunidades (imigrantes e outras) pouco tolerantes em relação à homossexualidade. Em suma, um documentário interessante mas pouco ambicioso em termos de cinema. Paris: Arlequin (04.2015) 2,5/5
14.4.26
Love Is Strange (Ira Sachs, 2014)
Ira Sachs é um realizador já com alguns filmes reconhecidos, mas até agora vi dois, ambos de temática gay e escritos por Sachs e Mauricio Zacharias. Sãos muito bons. É um realizador que pode vir a dar-nos grandes filmes no futuro. Em 2012 vi Keep the lights on (2011) sobre o amor complicado, instável, entre dois jovens homens; este ano vi Love is strange (2014), uma belíssima história de amor que dura há 40 anos entre dois homens. Decidem então casar-se, mas o mais jovem deles fica desempregado por ter tomado essa decisão (trabalhava numa escola católica). O casal tem de vender o apartamento nova-iorquino e instalar-se provisoriamente e separadamente em casa de familiares. Ao fim de 40 anos, já casados, têm de dormir em sofás emprestados, longe um do outro. É a parte mais triste do filme, mas é muito comovente também porque confirma que não podem viver um sem o outro. Também é um filme dedicado a Nova Iorque, às suas ruas e à sua luz, e suplanta o que Woody Allen tem feito ultimamente. Paris 11.2014 Odeon 4/5
14.1.15
The Smell of Us (Larry Clark, 2014)
O último filme de Larry Clark está a ser o acontecimento cinematográfico da rentrée do novo ano. Os Cahiers dedicam-lhe 1/3 do número de janeiro. É acontecimento em França não só porque é uma excelente obra de cinema mas também porque Clark saiu pela primeira vez dos EUA para filmar. E escolheu Paris. Clark filma a juventude de famílias desafogadas que se reúne na rive droite, no espaço do Palais de Tokyo, para andar de skate e fazer tudo o que lhes dá na telha. Inclusive para se prostituir. Vemos então jovens angélicos a sair com velhos ricos que só pagam com maços de notas de 100 euros. Um desses encontros termina com uma orgia de violência, o suicídio de um dos jovens e um carro queimado. Estamos no centro da capital, não nas mal-afamadas cités.
Clark, como grande fotógrafo que é, explora novos caminhos para a imagem no cinema, integrando muitas gravações de telemóvel, captadas com diferentes graus de nitidez pelos próprios jovens do grupo, o que reforça a visão da juventude a partir do seu interior, sem juízos externos. Clark também não recua na apresentação do sexo explícito e perturbante, sobretudo quando se passa entre adolescentes e velhos. Glorificado pela sua estética, o cinema de Clark é mais crítico do que se pensa. A câmara de Clark quer retribuir em beleza toda a sensualidade e beleza efémera destes jovens efebos mas o que eles fazem com esses atributos inspira ao espectador sentimentos dúbios. Um grande filme (mas longe de me despertar o entusiasmo que tenho por outras obras menores). Paris 2015 Odeon 4/5
19.10.14
Pride (Matthew Warchus, 2014)
É uma especialidade britânica: fazer um feelgood movie sobre os temas mais sérios e ainda por cima realmente acontecidos. Pride conta-nos com um humor irresistível algumas páginas da história da luta que juntou os mineiros de Gales e os gays e lésbicas contra o autoritarismo de Margaret Thatcher. Vi o filme com um prazer constante, muito por causa da banda sonora da época com tantas coisas boas como os Smiths. Difícil encontrar tanta música boa num só filme. Paris 3,5/5
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