Porto de Caixas é um clássico brasileiro do cinema novo. Tal como Vidas Secas, que adapta Graciliano Ramos, Porto tem um argumento original de Lucio Cardoso, outro expoente da literatura brasileira dos anos 1930/40. Anos mais tarde Paulo Cesar Saraceni adaptará o romance mais famoso de Cardoso, A Casa Assassinada, aliás citada e mostrada no filme de 1962. Porto das Caixas é a história de uma mulher que culpa o marido pela vida miserável a que a condena. A frustação é tal que abandoná-lo não chega: põe-se à procura de um homem que a ajude a matar o marido. A história tem muito a ver com The Postman Always Rings Twice (1934), de James M. Cain, várias vezes adaptada ao cinema (Garnett, Visconti, Rafelson). Mas o contexto brasileiro dá um sentido mais radical a esta história. A miséria das condições de vida do casal não é nada comparada à miséria moral da protagonista (no romance de Cain e nos filmes nele baseados há um motivo materialista na decisão da mulher, pois ela espera receber um dinheiro com a morte do marido). O filme não está à altura do excelente argumento, mas não deixa de ser uma importante obra na renovação do cinema brasileiro moderna. Música (sem bossa nova) de Tom Jobim. Paris 2017 Cinemateca 3/5
