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23.12.24

11.8.23

Marie-Hélène LAFON

Aurillac 1962
Editor Buchet/Chastel

Le Soir du chien (2001, romance)

Liturgie (2002)

Les derniers indiens (2008)

L'Annonce (2010)
Leitura

Les pays (2012)


Há escritores que constroem uma obra de grande qualidade, mas longe dos holofotes dos media e longe das multidões de leitores. E tornam-se, em alguns casos, em escritores de culto, pelo menos para alguns leitores. Em Portugal, penso em Teresa Veiga, em França em Marie-Hélène Lafon. Esta excelente escritora publicou agora Joseph, o seu último breve romance e pela crítica que li no Le Monde pude confirmar que ela mantém-se fiel ao universo que conheci nos seus livros Les Pays (2012) e Le Soir du Chien (2001). O mundo rural, a solidão dos habitantes desse mundo, agravada pela desertificação humana por que ele passa, os que ficam e os que partem, os problemas familiares, a observação de um mundo em extinção, são alguns dos temas que saltam de livro para livro de Lafon. É daqueles autores que estão a escrever sempre o mesmo livro e fazem-no de modo cada vez mais profundo. Mas acima de tudo, como estamos a falar de literatura, Lafon tem um estilo magnífico, conciso e revelador das complexas relacões entre as personagens ou entre estas e o meio que as envolve. Uma obra a que voltarei sempre. Setembro de 2014

JOSEPH (2014)
Joseph é um trabalhador agrícola. Trabalha e quase sempre vive nas quintas que precisam de mão-de-obra. Um homem solitário, mesmo antes de se ter afastado dos poucos familiares que tinha. Marie-Hélène Lafon faz um retrato implacável de um ofício, de um mundo em extinção, visto através de uma personagem que não se esquece facilmente. Um figura humana que vive pela superior arte literária de Lafon, que já conhecia e nunca desilude. Paris 07.2016 4/5

NOS VIES (2017)

Até agora o livro menos interessante de Lafon. A narradora conta a sua vida e a de duas ou três outras pessoas que costuma ver no supermercado. Inventa-lhes histórias, um passado, uma geografia, um conjunto de rotinas, simplesmente. Mas com uma língua sempre excelente. Melun 06.2021 3,5/5

Le Pays D'En Haut (2019)
Marie-Hélène Lafon
Entretiens avec Fabrice Lardreau
Arthaud 2023
Collection Versant Intime
BIBLIOTECA

HISTOIRE DU FILS (2020)
Prémio Renaudot

Histoire du fils é a história de uma família, uma saga familiar de certo modo, durante cerca de um século, mas marcada por uma complexidade narrativa e estilística invulgar. Adorei ler este brilhante romance de Lafon, e leria novamente com prazer o livro, inclusive para clarificar o puzzle que a autora propõe. A história de André, que nunca chegou a conhecer o pai mesmo sabendo quem ele era, é apresentada com permanentes saltos entre épocas e uma profusão de personagens que dá vertigem. É o ponto fraco do romance. Demoramos a entrar na história, o que nos obriga a mentalmente desenhar uma árvore genealógica que nem sempre é clara. Mas as personagens são fascinantes e a história acaba também por ser inesquecível. Melun 03.2021 (4/5)

4.9.21

Jóquei (2014)

Poesia de Matilde Campilho
Poesia caudalosa, mas rente à língua corrente, plena de referências aos lugares e a marcadores culturais, que criam imagens inesperadas mas quase sempre inolvidáveis. Caxinas Beach 2021 4/5

ÉDOUARD LOUIS

MONIQUE S'ÉVADE
(Seuil 2024)
Leituras 2024 Paris 3/5

QUI A TUÉ MON PÈRE (2018)
Seuil 2018

Um texto autobiográfico muito intenso que alia a dimensão íntima à social. O destino do pai do narrador (igual a tantos outros operários) depende da política dos governantes e da sua (in) sensibilidade. Um autor a seguir com atenção. Paris 2021 4/5

Em Portugal: 
Acabar com Eddy Bellegueule
Fumo Editora

História da Violência
ed Elsinore   

Quem Matou o Meu Pai)

Ana Margarida de Carvalho

Que Importa a Fúria do Mar (2013)
Romance de Ana Margarida de Carvalho

Que Importa a Fúria do Mar (Teorema, 2013) recebeu o Grande Prémio de Romance e Novela da APE. Um prémio bem merecido, pois revela um talento invulgar mas seguro. Narra a história de uma greve durante o Estado Novo, que foi obviamente reprimida e muitos dos seus participantes enviados à cumprir penas no campo do Tarrafal. Há uma jornalista hoje que está interessada nas memórias de um sobrevivente daquele exílio forçado. Os dois são os protagonistas e, à maneira de Lobo Antunes, temos acesso ao interior da jornalista num discurso caudaloso e por vezes cansativo e onde as referências culturais pesam demasiado. A autora não pertence pois à família literária que mais aprecio. Caxinas 2021 3/5

Pequenos Delírios Domésticos (2017)
Contos de Ana Margarita de Carvalho

Depois de ter lido o primeiro romance de Ana Margarida de Carvalho, atirei-me aos seus contos, também premiados pela APE. Pequenas vidas, nomeadamente de pessoas desenraizadas e social(e psicológica)mente vulneráveis é a matéria de vários contos. A escrita da autora faz maravilhas com estas histórias. Caxinas 2021 4/5

19.7.21

João RICARDO PEDRO

UM POSTAL DE DETROIT (2016)

Romance de João Ricardo Pedro

Partindo de um acidente ferroviário dos anos 80, que ficou na memória do país, João Ricardo Pedro narra a história de uma família que viu a filha desaparecer no acidente. O seu corpo nunca foi encontrado e as circunstâncias em que ela viajou permite muita especulação. Quem narra a história é o irmão da vítima, que era criança à época do acidente. O desenlace é desinteressante. E o estilo do autor não me conquistou, apesar do seu evidente talento. Caxinas 07.2021 2/5 BMPV

8.4.21

Amélie NOTHOMB

TANT MIEUX (2025)
Albin Michel 2025
Leituras 2025
2/5

LES AÉROSTATS (2020)

Que personagens são estas? Um adolescente disléxico antissocial que é um pequeno monstro em potência (no final esse monstro vai usar as suas garras assassinas contra os pais), uma jovem universitária inteligente, culta e extremamente impopular entre os colegas, e a colocatária desta, pessoa fria e inacessível como um pilar de pedra. A jovem é contratada para tratar da dislexia e dos problemas de leitura do adolescente. Faz milagres: ele lê a Odisseia num dia, a Ilíada noutro, O vermelho e o Negro noutro ainda. Cada uma das personagens (os pais do adolescente idem) parece sair de um filme de Tim Burton, encontrando-se na mesma história como se estivessem num barco a naufragar e todos corressem para o mesmo lado (errado). Li com prazer o romance-diálogo de Nothomb, fiquei com vontade de ler os clássicos citados e discutidos, mas quero esquecer bem depressa esta história e personagens vazias como um aeróstato. Melun 04.2021:2/5

SOIF (2019)
Soif é sobre Jesus nas últimas horas antes da crucifixação. Não há surpresas no enredo e no desenlace naturalmente. A atenção se concentra nos pensamentos de Jesus e na rememoração dos milagres que ele fez, e pelos quais foi depois acusado pelos beneficiados. O início promete um bom humor que depois se perde. Um Nothomb menor. Paris 06.2020 (1,5/5)

LE FAIT DU PRINCE (2008)
Le Fait du prince é o quarto livro que leio de Amélie Nothomb. Por que será que volto a esta escritora que considero talentosa mas longe de ser uma grande escritora? Leio-a com prazer e curiosidade mas sem nunca ficar arrebatado. Comecei com Hygiène de l'assassin (1920), o seu romance de estreia (e talvez o seu melhor) que me marcou bastante, depois li o divertido Stupeur et tremblements (1995) e nos últimos anos li Ni d'Eve ni d'Adam (2007) e agora este Le Fait du prince (2008). Os diálogos, caracterizados pelo humor e inteligência, são dominantes na literatura de Nothomb. O primeiro romance era um longo diálogo entre um escritor nobelizado e uma jornalista, que se transforma num duelo verbal entre duas inteligências. Le Fait du Prince começa com um longo diálogo entre dois desconhecidos numa festa particular e depois evolui para uma situação em que um homem e uma mulher ficam confinados a uma casa e através da conversa vão descobrir a identidade um do outro. O homem recebera em sua casa numa emergência um outro homem, que aí acaba por morrer. Então o homem assume a identidade do morto e vai conquistar a sua mulher. A situação ficcional de partida é engenhosa, como é habitual em Nothomb, mas não tarda a tornar-se demasiado artificial e portanto desinteressante. Até daqui a muito tempo, Amélie. Leitura 10.2015 Paris/Rio 2/5

Amélie Nothomb, de A à Z (Michel Zumkir, 2003)

Um livrinho organizado por ordem alfabética para conhecer o universo de Amélie Nothomb, o fenómeno literário da Bélgica. Nothomb passou a infância e juventude no Japão e na China e vive entre Bruxelas e Paris, mas longe dos holofotes mundanos. Há breves entrevistas com a família próxima (mãe, pai e irmã) e com os seus principais colaboradores. E os fãs também não são esquecidos. Ligeiro e interessante como os livros de Nothomb. Melun 02.2021 (2,5/5)

2.2.21

Jérôme FERRARI

NORD SENTINELLE (2024)
Actes Sud 2024
Leituras 01.2025
HISTÓRIA: Na Córsega, um jovem assassina outro jovem por uma disputa insignificante. Personagens: Alexandre Romani, Philippe Romani. Alban Genevey, Catalina, Shirin. 
LE SERMON SUR LA CHUTR DE ROME (2012)

Depois de estudos de filosofia na Sorbonne, aspiração maior da família de Mathieu, este resolve ocupar-se de um bar na Córsega, terra dos avós, juntamente com o seu amigo de infância Libero. Pretendem afastar-se das grandes cidades e prolongar a juventude despreocupada com um negócio desafiador, do qual se orgulharão pouco depois do passo dado. Mas a vida de aldeia, que apenas atrai gente de fora por causa do bar de Mathieu e Libero, logo será um peso para os dois amigos, e acabará com a sua amizade. A história, as personagens e a escrita do romance são magníficas. O prémio Goncourt atribuído a este romance é mais do que merecido. Melun 2021 (4,5/5)

BIBLIOTECA
Un dieu un animal (2009)

22.7.19

Isabel RIO NOVO

Madalena (2020)
Leitura 2022
A Febre das Almas Sensíveis (2018)
Romance de Isabel Rio Novo

Ao segundo livro tornei-me fã de Isabel Rio Novo. Pertence a uma família literária que muito admiro, a dos escritores íntimos da sociedade portuense, que fazem a sua crónica desde os primórdios do romantismo (Camilo, Agustina, Cláudio). Rio Novo aborda neste romance o Porto oitocentista e o enorme estrago humano que a tuberculose fez na sociedade e em particular nos maiores talentos literários e artísticos da época. Mas os protagonistas são uma família de classe média baixa em meados do século XX, quando os progressos da cura da tuberculose eram muito maiores. Excelente. Caxinas 2021 4,5/5
Rio do Esquecimento (2016)
Um excelente romance que convoca Agustina, Camilo e Mário Cláudio, três dos meus escritores preferidos. Como acontece em romances destes autores, Isabel Rio Novo privilegia a família e os laços familiares como centro da narrativa, apesar de uma ou outra personagem se destacarem. Póvoa de Varzim 4/5
Fortuna, Caso, Tempo e Sorte (2024)
Ensaio de Isabel Rio Novo
Leituras 2024
BIBLIOTECA

11.1.18

Ian MCEWAN

On Chesil Beach (2007)
Há muitos anos que não lia McEwan. O último tinha sido Sábado, cuja ação se concentra num único dia. Na praia (tradução de Bernardo Carvalho) passa-se na noite de núpcias de dois jovens nos anos 1950. É o relato de um fracasso, a derrota do Amor sob a impaciência e inexperiência dele e a frigidez dela. Uma noite sem futuro, mas que lhes marcou a vida, como sugere o narrador no balanço final. Póvoa de V. 4/5

Amsterdam (1998)
Um romance brilhante, uma sátira à relações entre o jornalismo e a política e à ambição sem limites de várias personagens influentes e poderosas (um editor de jornal, um compositor de música clássica, um ministro). McEwan é mestre na arte da narração e da construção romanesca irónicas. Mas, reconhecendo todo o seu talento, é difícil amar um livro a partir de um certo ponto quando todas as personagens são no mínimo execráveis, onde dificilmente encontramos uma ação que não esteja marcada por um profundo egoísmo. Póvoa/Paris 2015:  4/5

Sweet Tooth (2012) 
Romance de Ian McEwan
SERENA
Ed. Companhia das Letras 2012
BIBLIOTECA

NUTSHELL (2016)
Dans une coque de noix
Gallimard 2017


21.8.17

H. G. CANCELA

IMPUNIDADE (2014)
Difícil apresentar ou resumir a história deste romance, cujos meandros vão sendo revelados pouco a pouco. Talvez isso não seja importante. Logo de entrada (e vai ser assim todo o caminho) encontramo-nos perante seres magoados, náufragos de uma tragédia familiar de que nada sabemos mas a seu tempo saberemos. Duas crianças, o narrador, suposto pai das crianças, a mãe destas, uma outra mulher e o seu filho adolescente. Pouco falam, pouco fazem e pouco sabemos das suas motivações; e as crianças não são crianças, tolhidas já pelos crimes dos adultos. O narrador descreve imperturbável os escassos movimentos dos personagens, mas tudo é engolido pelo silêncio e pelo calor do interior de Espanha no verão. Mas há as breves notas sobre o corpo das mulheres, revelando um narrador perturbado, por momentos. Impunidade foi finalista do prémio da APE, o júri acertou ao considerá-lo merecedor de tal galardão. Praia das Caxinas 08.2017 3,5/5 BMPV

15.6.16

La liste de mes envies (2012)

Romance de Grégoire Delacourt

La Liste de mes envies (2012) foi um enorme sucesso de vendas tendo dado origem a um filme. Um sucesso que lembra outro anterior, L'élegance de l'hérisson, pelo humor e pelo tom menor que domina a vida da protagonista. Não gostei nem de um nem de outro, mas La Liste é francamente pior. Uma mulher que, apesar dos limites provincianos da sua vida (assim expostos por ela), considera-se feliz, a tal ponto de recusar receber o prémio do Euromilhoes para não perder o pouco que tem. Mas o marido não pensa assim e foge com o prémio. Tudo isto é narrado na primeira pessoa com uma linguagem pobre muito colada às modas do tempo. Uma obra com um prazo limitado. Londres 1/5