LA CACHE (2024)
REALIZADOR Lionel Baier ARGUMENTO Lionel Baier, Catherine Charrier, adaptação do romance La Cache (Christophe Boltanski, 2015) MÚSICA Diego Baldenweg, Lionel Baldenweg, Nora Baldenweg ELENCO Dominique Reymond, Michel Blanc, William Lebghil, Aurélien Gabrielli, Liliane Rovère PRODUÇÃO Bande à part Films ORIGEM Suíça Luxemburgo França ESTREIA Festival de Berlim (Alemanha) 19.03.2025 (França) VISTO Paris 24.03.2025 Beaubourg
LES GRANDES ONDES (2014)
Ora aqui está uma boa surpresa. Só soube da existência deste filme há uma semana, embora ele tenha sido já apresentado em Locarno, em agosto último. Trata-se de uma comédia produzida por três países: França, Suíça e Portugal. Conta-nos a história de dois jornalistas suíços que se deslocam a Portugal em abril de 1974 para avaliar o estado da cooperação suíça com Portugal. Juntam-se a eles um colega e um jovem português que fala um ótimo francês, cheio de expressões de Marselha, por ter aprendido essa língua com as obras de Pagnol, o escritor e realizador de clássicos que simbolizam o sul da França. A reportagem está em vias de ser abortada (os sinais da ajuda suíça são ridículos) quando se dá a revolução dos cravos e o quarteto é por ela engolido.
Não é uma comédia hilariante, quando muito sorrimos na maior parte do tempo, mas tem momentos muito divertidos sobretudo para os portugueses que consigam relativizar a caricatura de Portugal e dos portugueses que um olhar estrangeiro (quase) sempre traz. São tão raras as ficções para o grande ecrã, portuguesas e estrangeiras, sobre os anos 1970 portugueses que só podemos celebrar e receber com simpatia este filme.
Esta comédia não tem nada a ver com a Gaiola Dourada. Confirma a minha opinião de que esta é uma descendente direta da comédia à portuguesa dos anos 1930-1940, em que a sociedade portuguesa (ou luso-francesa) é metida num pátio e é muito feliz nesse pátio (com mais ou menos cantigas). Les grandes ondes resulta de um olhar estrangeiro, francês, de um olhar informado sobre a conjuntura política e social do passado e do presente de um país que passou a exercer influência internacional com a revolução dos cravos. Para um português é um prazer ouvir fado, Paulo de Carvalho ou Zeca Afonso a marcar a realidade política e social em mudança. Mais surpreendente é ouvir ao longo de todo o filme George Gershwin, em especial a ópera Porgy and Bess (1936), ópera revolucionária a vários títulos e que retrata uma comunidade (negra) que vivia oprimida pela maioria branca nos anos 1920. A opção pela música de Gershwin foi um dos elementos mais surpreendentes do filme, abrindo o leque de leituras que podemos fazer dele.
Vários temas são aflorados ou até desenvolvidos: a guerra colonial, o estatuto social da mulher, a confusão política imediata à queda da ditadura, entre outros. Há ainda lugar a uma fantasia musical nos bairros antigos de Lisboa, a meu ver um pouco deslocada no tom geral do filme. E mais uma vez o burro aparece como símbolo do Portugal tradicional, fazendo-me lembrar as comédias brasileiras dos anos 50 que tinham sempre um portuga (com ou sem burro) na intriga.
Vale bem a pena esta visita saborosa à revolução de abril. Paris 02.2014 NOTA 3.5/5
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| Sufocados: a revolução ainda estava para chegar |
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| Qualquer um pode tornar-se um herói |
UN AUTRE HOMME (2008)
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COMME DES VOLEURS (2006)
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