Nada a Dizer (Elvira Vigna, 2010)

Elvira Vigna: Nada a Dizer (Quetzal, 2013)
Descoberta de uma escritora brasileira, há muito consagrada no seu país. Esta edição é o primeiro livro dela publicado em Portugal. Uma mulher que mora em São Paulo conta como o marido a traiu com uma amiga no Rio, as viagens, os encontros no mesmo hotel e de como essa relação secreta e os segredos inerentes interferiram com a empresa que o casal mantinha. Bom romance. P.Varzim 3,5/5

Un mois à la campagne (Tourgueniev, 1850)

Um grupo de amigos projetava passar um mês no campo, mas a paixão de uma senhora casada por um amigo dela e do marido estraga os projetos de todos. Peça e personagens encantadores numa produção que gostaria de rêver. Encenação de Bernard Lefebvre, com Bernard Lefebvre, Hélène Robin, Julia Beauquesne, Véronique Dugon, Alain Michel, Natalya Petrovna, Rakitin, Olivier Bruaux (Belyaev), José Saraiva (Islayev), Julia Beauquesne (Verochka), Anna Semyonovna Islayeva, Lizaveta Bogdanovna, Adam Ivanovich Schaaf, Frédéric Morel (Bolshintsov), Shpigelsky. Paris 4/5

Tragédien malgré lui & Un Jubilé (Tchekhov)

Um espetáculo com duas breves peças de um ato. Duas peças cómicas encenadas por Alain Bonneval. Esta comicidade tão invasora era-me desconhecida no teatro de Tchekhov. Um cómico que lembra Gogol. Na primeira peça, um homem insiste em matar-se porque é explorado por todos... O humor como bom aliado da crítica social. Paris 4/5

Le Postillon de Lonjumeau (Adam, 1836)

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Le Postillon de Lonjumeau de Adam foi criado na Opéra-Comique em 1836, reposto muitas vezes nesse século, exportado com sucesso e depois...desapareceu dos teatros. Em boa hora a Opéra-Comique repôs a obra em março passado, com Michael Spyres (Chapelou), Florie Valiquette (Madeleine) e Franck Leguérinel (marquis de Corcy) nos principais papéis. Chapelou casa-se com Madeleine mas no próprio dia de casamento é aliciado a ir para Paris fazer carreira (e muito dinheiro) como cantor de ópera. Abandonada, a mulher vai vingar-se fazendo-o apaixonar-se e casar-se novamente com ela (que lhe aparece como sendo uma outra pessoa). Cometem um crime segundo a lei da época (século 18). Mas tudo acaba bem como era expectável nas opéras comiques. A produção a que assisti, com direção musical de Sébastien Rouland e mise en scène de Michel Fau, é excelente. Percebe-se por que a obra não é frequentemente encenada nos teatros, não se percebe por que quase desapareceu deles. Paris 3,5/5

Le Sauvage ou l'Homme des Bois (Tchekhov, 1889)

Le Sauvage é uma versão tosca de Tio Vânia. Ambas as peças têm em comum as personagens e boa parte das cenas e das falas. Mas Tchekhov transformou uma boa peça numa outra genial. Com esta integral do Théâtre du Nord-ouest, descobri que Tchekhov levou tempo a atingir o saber e a técnica dramatúrgicos que o elevaram ao topo do teatro universal. No início peças apenas interessantes e modestas, nos últimos anos de vida pelo menos quatro obras-primas que estão entre o que melhor se fez para o teatro. Paris 3/5

Tinta Bruta (Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, 2018)

Filipe Matzembacher e Marcio Reolon estão a ter uma carreira muito interessante. Tinta Bruta é de longe o seu melhor filme. Ganhou o Teddy Award em Berlim, um dos mais importantes prémios mundiais que contemplam a produção LGBT. Conta a história de um rapaz pouco sociável, que quase não sai de casa, depois de um acidente em que agrediu de forma violenta um colega, e pelo qual aguarda julgamento. Entretanto assume o papel de rapaz neon na internet, exibindo o seu corpo pintado com tintas que brilham no escuro. Nesse papel assume uma personalidade mais extrovertida e confiante. É um filme centrado numa personagem complexa e fascinante, aliás muito bem retratada. Com Shico Menegat, Bruno Fernandes, Guega Peixoto. Paris 4/5

Dumbo (Tim Burton, 2019)

A Disney não para de reciclar o seu património. Faz bem. Dumbo (1941), o clássico de animação, é um dos filmes mais marcantes da minha infância. Talvez o filme da minha infância. Tim Burton, com gente real, consegue transmitir todo o maravilhoso da história, mas continuo a sentir que os superlativos meios de produção esfriam de certo modo a dimensão emocional do filme. Bons atores: Colin Farrell, Michael Keaton, Danny DeVito, Eva Green, Alan Arkin. Paris 3,5/5

Liz et l'oiseau bleu (Naoko Yamada, 2018)

O filme fala da amizade amorosa entre duas adolescentes, Miroze e Nogozumi. Mas pouco a pouco afastam-se uma da outra talvez devido à intensidade dos sentimentos envolvidos. Liz et l'oiseau é o título do livro que ambas lêem e que serve de espelho ao que se passa na sua relação. Miroze vai aceitar o afastamento da amiga quando percebe por que Liz liberta o pássaro seu amigo. Um filme sensível e inteligente sobre a complexidade das relações humanas. Paris 3,5/5

Frans Krajcberg (Regina Jehá, 2018)

Frans Krajcberg é um artista brasileiro nascido na Polónia. Um artista devotado à preservação da natureza, a sua musa, mãe, amiga... Revoltado com os homens (que lhe mataram a família na segunda guerra), recolhe-se na natureza vivendo no cimo das árvores na Amazónia, numa casa construída por si. O documentário mostra o seu interesse pela Bienal de São Paulo, que o convidou para expor no grande hall de entrada, numa edição dedicada à arte e ecologia. As obras apresentadas são em madeira e são inspiradas no seu amor pela floresta, pelas árvores. Paris 3/5

Isabelle Faust toca Bach

Raros foram os concertos que me emocionaram tanto como este. Quase três horas de partitas e sonatas com violino solo assustam um pouco, no início. Mas depois, conduzidos por Isabelle Faust, vamos avançando e ouvindo muitas vozes singulares, todas diferentes e únicas, como os seres humanos. Um violino pode trazer muita gente consigo! Inesquecível. Paris TCE 5/5