Polyester (John Waters, 1981)

Hoje fui, pela primeira vez, ao cineclube Camp, que organizou uma sessão muito especial com o filme Polyester, sem dúvida um clássico do cinema camp e queer. Enquanto assistíamos ao filme tínhamos de raspar cada número (de 1 a 10) de um odorama à medida que apareciam os números no écran. Ao raspar, soltava-se um cheiro agradável ou desagradável. O número 2, por exemplo, corresponde a um peido que um dos personagens soltou logo no início do filme. Este é protagonizado por Divine, que entrou em vários filmes de John Waters, e que aqui faz de dona de casa pouco elegante, desprezada e traída pelo marido, e mãe de dois jovens passados da cabeça. Dexter, o filho, entretem-se a esmagar os pés das mulheres, origem da sua perversão sexual e pela qual vai preso. A comédia é desbragada e excessiva, como é própria do camp, e tem momentos de antologia. Foi praticamente a minha estreia nesta área de cinema. Paris 4/5 

Aquarius (Kleber Mendonça Filho, 2016)

Aquarius é o meu filme preferido de 2016. Sónia Braga (no seu melhor desempenho no cinema) é Clara e vive pacificamente a sua reforma no seu apartamento com vista para o mar de Recife. Mas o seu prédio vai ser demolido, Clara torna-se o único inquilino e vai oferecer resistência e luta à especulação imobiliária. É um filme de personagem, em que esta anima o curso dos acontecimentos. Gosto desse tipo de filmes. E Aquarius é excelente ao dar todo o espaço e protagonismo a Clara, que foi crítica musical nos gloriosos e também combativos anos 70. Paris 5/5

Não Devore o meu Coração (Felipe Bragança, 2017)

O que eu mais gosto deste filme é a sua ambição. Quer ser grande, quer ir mais além. Parte de uma história surrada, a de Romeu e Julieta (adolescentes como os personagens de Shakespeare), cujas famílias se odeiam. Essa animosidade assume neste filme uma herança secular que opõe os brancos brasilerios aos índios paraguayos na zona de fronteira entre o Brasil e o Paraguai. O filme fica aquém da sua ambição, mas sobram cenas impressionantes, como as passadas no rio ou na estrada entre os motoqueiros. Paris 3,5/5

Outro Sertão (Documentário, 2013)

Guimarães Rosa, antes de ser conhecido como (grande) escritor, foi diplomata em Hamburgo, Alemanha, durante alguns anos a partir de 1938. Escreveu muito sobre o que gostou e não gostou na Alemanha, mas com a guerra teve de sair do país, não sem antes ajudar muitos judeus a passar a fronteira. Outro Sertão, de Adriana Jacobsen e Soraia Vilela, encontra o tom justo, entre depoimentos, escritos do escritor e imagens de amadores da época para falar de tão fascinante assunto. Paris 3/5

Tous les rêves du monde (Laurence Ferreira Barbosa, 2017)

Estreia em França: 18/10/2017
Há poucas ficções francesas sobre a comunidade portuguesa. E no entanto há um precedente recente que foi um enorme sucesso de bilheteira, principalmente em Portugal: La cage dorée. O último filme de Ferreira Barbosa não vai seguir o mesmo trilho de sucesso. Não é uma comédia, para começar, e falta-lhe um o nervo que está presente nos projetos populares. Tous les rêves du monde é o retrato de uma jovem francesa de ascendência portuguesa, que está meio perdida na idade do bac, que ela não consegue passar pela segunda vez, para frustração dos pais. O retrato da comunidade portuguesa é complexo e justo e a realizadora enfrenta com inteligência os muitos clichés que envolvem essa comunidade. Mas reconheço que me senti incomodado com a imagem dos portugueses transmitida pelo filme, tal como acontecera com a Gaiola dourada. Que tipo de integração na sociedade francesa essa comunidade conquistou? Duas personagens masculinas e uma feminina, todos jovens e mais descomplexados do que a protagonista, trazem fortes e justas críticas ao debate sobre os portugueses em França. Muito interessante. Paris Bastille 3/5 

Histórias de amor duram apenas 90 minutos (Paulo Halm, 2010)

Apesar do belo elenco encabeçado por Caio Blat e Maria Ribeiro, o filme parece-me bem desinteressante. Narra a história de um jovem escritor numa fase crítica de inspiração, que começa também a pôr em causa o seu casamento, imaginando que a sua mulher o trai... com outra mulher. Um ménage à trois narrado a traço grosso, sem qualquer graça. VC 2/5

Fazil Say, o favorito

Fazil Say é um pianista e compositor. No final deste concerto apresentou a sua última obra, Black Earth The Art of Piano, fascinante. Mas foi com Appassionata que a sala veio abaixo com os aplausos. Say é um chouchou entre os pianistas, será pela gestualidade para lá de expressiva das mãos? Do que eu mais gostei mesmo foi de ter ouvido as Gnossiennes de Satie, autor menos presente nos recitais do que Chopin e Beethoven. Paris 4,5/5
Programa:
Chopin: Trois Nocturnes
Beethoven: Sonate n° 23 «Appassionata» 
Satie: Six Gnossiennes 
Say: Black Earth The Art of Piano

Saturday Night and Sunday Morning (Karel Reisz, 1960)

Para sabermos o que foi a figura do angry young man que tanto marcou o teatro e o cinema britânicos dos anos 1950, basta vermos este filme exemplar. Albert Finney encarna na perfeição os jovens insatisfeitos nascidos no período da guerra e no pós-guerra que se revoltam contra os pais conservadores e acomodados. O Free Cinema foi mais de esquerda do que a Nouvelle Vague, parece-me, e explorou o tema do desafio das autoridades (paterna e estatal) de forma mais intensa. Até os filmes históricos (de Richardson, por exemplo) passam por essa temática. Paris 4/5

Os ricos e os pobres, segundo Mascaro

Um Lugar ao Sol (Gabriel Mascaro, 2010)
Os realizadores documentaristas, poucas vezes dão voz aos privilegiados. Gabriel Mascavo, sempre surpreendente, fez um filme sobre os moradores das coberturas, os apartamentos que ficam no topo dos edifícios, sinal de riqueza e de status. Os poucos moradores de coberturas que aceitaram ser entrevistados falam com evidente orgulho dessa sua situação privilegiada e quase sempre a relacionam com o mérito individual. Muito interessante. Porto FBAP 3/5
Doméstica (Gabriel Mascaro, 2012)  
Depois dos moradores privilegiados das coberturas dos prédios da orla do Rio e de Recife (Um Lugar ao Sol, 2010), a câmara de Gabriel Mascaro desce para as moradias e apartamentos mais modestos onde as empregadas domésticas se tornam essenciais. Empregadas que moram com os patrões, são "quase da família" e têm uma vida própria obviamente muito limitada. Talvez devido à novidade do tema, prefiro o filme sobre as coberturas dos prédios. Porto 2,5/5

L'atelier (Laurent Cantet, 2017)

Uma escritora consagrada anima um atelier de escrita com vários jovens de La Ciotat. O projeto que desenvolvem resultará num policial passado no cais da terra. O interesse dos jovens no atelier é desigual, e rapidamente os conflitos entre eles se multiplicam devido às suas diferentes histórias de vida. A questão da discriminação com base na origem de cada um deles é especialmente relevante. Um bom filme, na linha das obras de Cantet, sempre atento à realidade conflitual da sociedade e dos jovens em particular. Paris 2,5/5