Les Grands Moments du Music-Hall (Sélection Du Reader's Digest, 1996)

Comprei há dias este disco por curiosidade pelo seu conteúdo (music hall? francês?), e pelo grosso booklet com biografias de todos os artistas representados. Mal comecei a ouvir fiquei dececionado ao perceber que todos os temas foram gravados ao vivo (sempre preferi as gravações de estúdio). Mas insisti e então comecei a descobrir umas pepitas da chanson que não sonhava existirem. De Edith Piaf há um tema (Mon vieux Lucien) em que ela se engana e tem de retomar a canção, e canta-a então de forma superior. Há Jacqueline Dulac (Venise sous la neige) de que nunca ouvira falar, Adamo (Viens ma brune) ou Charles Trenet (Bonsoir jolie madame). Entre outros. Tesouros que desconhecia. 

Leitura: Sai da frente – A vida e a obra de Mazzaropi (Marcela Matos)

Nunca me tinha acontecido isto: ler um livro sobre uma personalidade do cinema cuja filmografia me é totalmente desconhecida. Já tinha ouvido falar de Mazzaropi e sabia que ele era uma peça incontornável no cinema brasileiro. Foi um ator cómico que carregava os filmes consigo, como Totó em Itália ou Louis de Funès em França. Mas no cinema do Brasil a importäncia era bem maior do que aqueles cómicos nos respetivos cinemas nacionais. Mazzaropi teve de financiar, produzir, escrever, realizar e protagonizar os filmes para ter trabalho no cinema. Ele começou por trabalhar em grandes estúdios brasileiros nos anos 1950, que tentavam imitar os americanos ou a Cinecittä. No entanto, nem com o enorme sucesso dos filmes de Mazzaropi aqueles estúdios vingaram. Mazzaropi (neto de portugueses e italianos) teve de criar uma indústria só para si, erigindo bons estúdios no campo, em Taubaté, Sao Paulo, e trabalhando sempre com a mesma equipa. O sucesso durou anos e anos até à sua morte. É sempre comovente quando um povo inteiro (na realidade, mais o sul do Brasil) se identifica tanto com uma personagem de cinema e se revê nela. Mazzaropi criou o caipira (homem da roça, do campo) mais famoso do cinema brasileiro e transformou uma tradiçao literária consagrada na personagem de Jeca Tatu por Monteiro Lobato. Mas Mazaroppi começou por ser um grande ator cómico no circo, no teatro ambulante e depois fixo e na televisao, bem no início desta no Brasil em 1950 (o país foi o quarto no mundo a introduzir a televisão, depois dos EUA, França e GB). Mas foi o Brasil que lhe deu maior celebridade em todo o país. Agora resta-me ver alguns filmes com este Totó tropical. Leitura 2014: 4/5

Bem Dotado - O Homem de Itu (José Miziara, 1979)

O Bem Dotado - O Homem de Itu é uma das mais famosas pornochanchadas, com Nuno Leal Maia, um dos mais carismáticos atores deste género. Mas vê-la foi uma desilusão, pois não tem o nível das pornochanchadas escritas por Nelson Rodrigues. 2/5

Tim Maia (Mauro Lima, 2014)

Os brasileiros mais uma vez acertaram. Fizeram um bom biopic (ou cinebiografia) de um dos músicos mais populares do Brasil, o rei do Soul brasileiro, que já dera um musical de grande sucesso. O melhor do filme é a interpretação de Tim Maia por Babu Santana, até refizeram os LPs mostrados no filme com a sua cara. O filme está a ser um sucesso de público e de crítica, mas a meu ver há melhores neste filão brasileiro dos biopics musicais. Há personagens desenvolvidas de forma desinteressante (Roberto Carlos, o amigo que faz de narrador) Mas também há piores como o último do consagrado Clint Eastwood. Bahia, Lapa Center 3,5/5

My Name is Now. Elza Soares (Elizabete Martins Campos, 2014)

Um documentário mais poético que expositivo, que explora de forma bem conseguida a persona de Elza Soares. Não é para os que não conhecem esta grande cantora. São escassos os factos biográficos narrados e sobretudo é frustrante a reconstituição cronológica dos grandes momentos da carreira de Elza. Mas Elza é cúmplice da opção da realizadora e provoca o espectador, não se preocupando em desfazer os mitos, os clichés que com o tempo se foram fixando sobre a cantora. Dura na queda. Mas muitas vezes em queda, em perdição, mas sempre sabendo dar a volta por cima. Bahia, Itaú Cinemas 3/5

Suburbicon (George Clooney, 2017)

Suburbicon é um retrato em tom cómico da classe média americana das pequenas cidades nos anos 50. No centro da história, duas famílias: uma família negra que, mal se instala na comunidade, vai ter uma receção digna do Ku Klux Klan; na casa ao lado, um chefe de família exemplar (Matt Damon) vai dar cabo da vida dos seus numa sequência cómico-negra que faz lembrar os irmãos Coen (estes assinaram o argumento com Clooney e Grant Heslov). A associação das duas famílias é pouco convincente (ou o linchamento que os vizinhos tentam concretizar serve apenas para abafar a carnificina da casa ao lado?) e as personagens nunca me tocam verdadeiramente (e Julianne Moore não evita os tiques da dona de casa dos 50s). Um filme que se esquece facilmente. Paris Opéra 2/5

A Dama do Lotação (Neville d'Almeida, 1978)

Este filme, ou melhor, a fama e as imagens que conhecia dele, habitaram os meus sonhos de adolescente, muito por causa de Sónia Braga. Mas só agora, graças à internet, pude vê-lo. Sónia, em sensualidade só tinha concorrência nas italianas peitudas dos anos 70. Mas a vantagem vai para a brasileira, que tem um papel mais emancipado que as italianas, presas do machismo latino. Sónia é Solange, uma moça que casa virgem com um homem que conhece desde a infância, mas a quem ela recusa dar-se. O marido estupra-a e ela, para ultrapassar a frigidez e salvar o casamento, dá-se a dezenas de homens, entre os quais os únicos confidentes do seu marido (o pai e o seu melhor amigo). O marido, quando descobre que é traído (e traídos são cada um dos amantes-de-um-dia de Solange), arrisca virar um serial killer para salvar a sua honra. Desiste na hora. Decide morrer. Uma história destas só podia sair da máquina do grande Nelson Rodrigues, que assinou filmes fundamentais da década de 1970. Não conheço melhores comédias eróticas do que as brasileiras destes anos. São as que vão mais longe na representação quase explícita do sexo. Além disso, contam com grandes argumentistas como Rodrigues, com os melhores atores da época e com música de luxo. Neste filme, Caetano Veloso assina a trilha e o tema principal, Pecado Original. 7/10

Rolando Villazón (tenor) & Ildar Abdrazakov (TCE)

O recital dado pelo tenor Roland Villazon e pelo baixo Ildar Abdrazakov decorreu sob o signo da amizade. Para além de cantar, individualmente e em dueto, eles abraçaram-se muito, provocaram-se mutuamente como dois velhos amigos, dançaram nos braços um do outro. Cantaram canções populares de língua espanhola (Granada), inglesa (Over the Rainbow, no bis) e russa. O público respondeu calorosamente a tanto afeto, não muito habitual num recital de ópera. Apesar da boa prestação dos dois excelentes cantores, gostei bem mais da passagem recente pelo mesmo teatro do tenor Juan Diego Florez. Paris TCE 3,5/5

Recital de canto: Rolando Villazón (tenor) & Ildar Abdrazakov (baixo) 
Guerassim Voronkov dirige a
Deutsche Staatsphilharmonie Rheinland-Pfalz

Programa
Emili Reznicheck Donna Diana Ouverture Verdi «L’Esule» (R. Villazón), 
«Uldino Uldin!... Mentre gonfiarsi l’anima... Oltre quel limite t'attendo» 
extrait d’Attila (I. Abdrazakov) 
Mascagni Cavalleria rusticana, Intermezzo 
Verdi « Non t'accostare all'urna » (R. Villazón) 
Airs et duo extrait de Mefistofele, de Boïto 
« Son lo spirito che nega » (I. Abdrazakov), 
« Strano figlio del caos » (R. Villazón & I. Abdrazakov),  
Ruperto Chapi La Revoltosa Ouverture 
Anselmo C. Carreno / Luis Fernandez de Sevilla « Ya mis horas felices » 
air extrait de La del Soto del Parral (R. Villazón) 
Rachmaninov "Ne poj, krasavitsa, pri mne" (I. Abdrazakov) 
Massenet La Vierge, dernier sommeil de la Vierge 
Stanislao Gastaldon "Musica proibita" (R. Villazón) 
Luigi Denza « Occhi di fata » (I. Abdrazakov) 
Ponchielli La Gioconda, Danse des heures 
Agustin Lara "Granada" (R. Villazón & I. Abdrazakov) 
Florian Hermann / Evgeny Hrebenka "Ochi Chyornye" (R. Villazón & I. Abdrazakov)

Il Barbiere di Siviglia, de Rossini (TCE)

O Barbeiro de Sevilha recebeu uma nova roupagem, assinada por Laurent Pelly, na recente produção do Théâtre des Champs Elysées. O palco é ocupado por folhas de música pautadas, gigantes, que vão mudando de posição. Tudo é a preto e branco e o coro são notas musicais. Não fiquei convencido (raramente fico com as encenações), apesar de esta encenação se inspirar na história do Barbeiro : Rosina é aluna de piano de Don Basilio, e é substituindo este que o pretendente de Rosina, o conde Almaviva, consegue ficar junto dela com autorização do pai. Bartolo, o pai de Rosina, é enganado pelo pretendente da filha, ajudado por Figaro, e é essa a trama central desta ópera buffa, que encanta o público desde que foi criadas, há dois séculos. Paris 4/5
Jérémie Rhorer dirige Le Cercle de l’Harmonie 
Laurent Pelly
(mise en scène, scénographie, costumes)
com 
Elgan Llŷr Thomas  (Il Conte Almaviva)
Guillaume Andrieux  (Figaro)
Alix Le Saux (Rosina)
Pablo Ruiz (Bartolo)
Guilhem Worms (Basilio)
Eléonore Pancrazi (Berta)
Louis de Lavignère (Fiorello)

God's Own Country (Francis Lee, 2017)

God's Own Country é um drama romântico sobre a paixão entre dois trabalhadores rurais. Começa por lembrar Brokeback Mountain, pois o amor entre os protagonistas nasce quando eles pastoreiam animais num local isolado e frio. Mas John e Gheorghe têm uma passado e uma vida homossexual (mais ou menos) assumida. A relação entre os dois vai levar à mudança significativa de hábitos e de atitude de um deles. Um dos mais belos filmes do ano. Paris 4/5