Leitura: Francesco Cavalli (Olivier Lexa, 2014)

Francesco Cavalli é sem dúvida um dos grandes títulos da coleção Actes Sud/Classica. O seu autor, Olivier Lexa, afirma que é a primeira biografia completa escrita sobre o grande mestre de ópera do século XVII. Nem queria acreditar quando soude disso. Cavalli é o maior compositor de óperas do seu século a par com Monteverdi. Mas Cavalli inaugurou, em Veneza, a organização do espetáculo operático que iria durar durante muitas décadas e em alguns aspectos dura até hoje. Cavalli, juntamente com outros compositores a trabalhar para Veneza, desenvolveram o modelo público da  ópera, que já não era ópera de corte para os happy few, mas ópera para (potencialmente) todos. Quem investia eram os empresários, e Cavalli era um deles, por isso o lucro era um objetivo confessado. Cavalli foi um compositor prolífico e de grande sucesso e algumas das suas obras tiveram direito a reprises ainda em vida do compositor, coisa inédita na época. Uma leitura marcante. Paris 5/5

Opera: Carmen (Bastille, 2017)

Por ter visto ainda há pouco esta produção (encenação de Calixto Bieito) desta vez sem Roberto Alagna, pude concentrar-me na partitura de Bizet. Fico sempre espantado com o número de árias e peças orquestrais que passaram para o domínio popular. Há compositores com várias óperas que, juntas, não têm tanta riqueza quanto esta única ópera. A orquestra foi dirigida por Mark Elder e nos principais papeis tivemos: Anita Rachvelishvili (Carmen), Bryan Himel (Don José), Marina Costa-Jackson (Micaela) e Ildar Abdrazakov (Escamillo). Muito bom, para variar. Paris Bastille 4/5

Leitura: Vita - The Life of Vita Sackville-West (1983)

Vita Sackville-West notabilizou-se como romancista, poeta e autora de livros sobre jardinagem escritos a partir da sua paixão pelos jardins (os da sua casa de Sissinghurst estão abertos ao público e são muito visitados). No entanto, a biografia Vita: The Life of Vita Sackville-West (Weidenfeld, 1983), de Victoria Glendinning, ocupa-se sobretudo da sua vida íntima e menos da sua obra literária. Vita foi casada com Harold Nicolson, também escritor além de diplomata e político, e ambos viveram um amor intenso até aos últmos dias de vida de Vita (1962). Mas tanto um como outro eram homossexuais e Vita, em particular, acumulou antes e durante o casamento, os casos com mulheres, entre as quais o mais famoso terá sido Virginia Woolf. A relação de Vita com o marido e com as muitas amantes está bem comprovada através dos diários e das cartas que eles trocavam entre si. Poucos casamentos passaram com tantos pormenores para o papel como o de Vita e Harold. Na verdade, eu li esta biografia como se de um romance se tratasse, ou pelo menos com a devocão que costumanos ter pelos melhores romances. Depois da leitura, dois desejos me tomaram: ler a obra romanesca de Vita e visitar a casa da sua infância, Knole, uma das mais famosas propriedades privadas inglesas, pertencente durante séculos ao Lorde Sackville, e Sissinghurst, onde viveu a maior parte da sua vida. Li a versão francesa do livro de Victoria Glendinning, Vita, La Vie de Vita Sackville-West (Albin Michel, 1987). Paris 4/5

Retour à Montauk (Volker Schlondorf, 2017)

Stellan Skarsgård e Nina Hoss amaram-se na juventude em Nova Iorque. Passados muitos anos, Stellan, escritor reconhecido, regressa a esta cidade para apresentar a sua última obra, inspirada pela paixão por Nina e não descansa enquanto não se encontrar com ela. O filme inspira-se em (e é dedicado a) Max Frisch e o argumento é de Colm Toibin. Rareiam hoje os filmes com a intensidade filosófica e dramática de Montauk, servido por dois grandes atores. Pena que esteja a passar despercebido na programação de cinema em França. Merecia melhor. Paris 3,5/5

Recital: Anja Harteros (Palais Garnier, 2017)

A soprano Anja Harteros deu um recital exemplar de lieder: Schubert, Schumann, Alban Berg, Richard Strauss. Foi acompanhada pelo pianista Wolfram Rieger. Paris 5/5

Dança: Novos coreógrafos no Palais Garnier (2017)

Este foi o programa de dança menos interessante que já vi no Palais Garnier. Quatro peças de jovens coreógrafos que pertencem ao Corpo de Ballet da Opéra de Paris. Talvez tivesse sido melhor apresentar estas coreografias com outras peças clássicas do século XX, ao longo do ano. A qualidade foi obviamente desigual, mas nenhuma das peças me marcou. Paris 2/5

Opera: La Cenerentola (Rossini, 1817)

O meu corpo reage a Rossini como se este fizesse música de dança: não consigo ficar quieto como fico com Verdi ou Puccini. Desde a sinfonia de abertura de La Cenerentola (uma das mais conhecidas de Rossini, um craque das aberturas de óperas) que tenho dificuldade em ficar quietinho, e depois chegam aqueles incríveis sextuors em que os personagens principais, em crescendo, vão comentando a ação com aquele movimento sincopado que é dado tanto pelas cordas como pelo canto feito de sílabas repetidas com efeito cómico à mistura. Mudam-se os encenadores e os intérpretes mas fica sempre bem lá no alto a o génio musical e dramático de Rossini. O espetáculo que vi hoje é uma nova produção da Opéra de Paris, com encenação de Guillaume Gallienne (fraquinha...), direção musical de Ottavio Dantone e excelente interpretação de Teresa Iervolino (Cenerentola) e Juan José de Leon (Don Ramiro). A saída da Opéra tivemos direito a uma milonga improvisada. Uma noite em grande. Paris Palais Garnier 4,5/5

Expo: Sérénissime! Venise en fête, de Tiepolo à Guardi

O museu Cognac-Jay é especializado nas artes do século XVIII, século de grande brilho artístico em Veneza, a Sereníssima. Em 1797 Veneza perderia a sua independência secular, face às forças de Napoleão, mas nesse último século de independência seria ainda um dos centros culturais da Europa: Tiepolo, Canaletto, Guardi, Casanova, os castrati, a commedia dell’arte de Goldoni, e mais alguns nomes surgem nesta pequena exposição bem montada e muito informativa sobre a grande cidade italiana. Mas soube a pouco, ainda assim. Paris 3,5/5

Opera: Il Signor Bruschino (Rossini, 1813)

Enrique Mazzola
Il Signor Bruschino (1813) é uma ópera da juventude de Rossini. Mas nela, o seu estilo pessoal já é bem visível. O Théâtre des Champs-Elysées tem apresentado um ciclo das suas óperas menos conhecidas, dirigidas por Enrique Mazzola. Hoje estiveram em destaque, entre os cantores, Alessandro Corbelli e Chantal Santon-Jeffery. Paris TCE 3/5

Expo: Au-delà des étoiles. Le paysage mystique de Monet à Kandinsky (Orsay, 2017)

A paisagem como meio privilegiado de transmitir emoções e sentimentos pessoais... a paisagem como terreno simbólico e místico... Muitos artistas a partir dos simbolistas do fins do século XIX exploraram essas dimensões da paisagem e criaram tantas obras-primas como as que podemos ver nesta exposição impressionante. Não faltam os nomes que todos conhecem (Monet, Van Gogh, Gauguin) mas há muitos de que pouco ou nada conheço e quem tem obras excelentes nesta exposição: Hodler, O'Keefe, Klimt, Denis, Lawren Harris, Tom Thomson, Emily Carr. Paris 5/5