Twilight Zone: The Movie (1983)

Quatro excelentes realizadores dos anos 80 assinam quatro histórias de ficção científica inspiradas pela série televisiva Twilight Zone. Gostei particularmente da última história, realizada por George Miller, sobre um voo acidentado e um passageiro com uma crise aguda de pânico. Um filme representativo do cinema de FC dos anos 80. Os outros realizadores são Steven Spielberg, John Landis e Joe Dante. Paris 3/5

Merrily We Go to Hell (Dorothy Arzner, 1932)

Antes do ciclo da Cinémathèque dedicado a Dorothy Arzner, nunca tinha ouvido falar desta importante realizadora que trabalhou para os estúdios de Hollywood nos anos 20 e 30. Portanto, é o primeiro filme que vejo dela e fiquei de imediato conquistado. Merrily We Go to Hell é uma comédia dramática sobre um grande amor entre um jornalista, e dramaturgo frustrado (Fredric March), e a herdeira de um grande industrial (Sylvia Sidney). O casamento deles atravessa tempestades (alcoolismo, infidelidades, adultério consentido) mas chega a bom porto. Uma bela história de amor, sublimada por grandes atores. Paris 3,5/5

Going to Brazil (Patrick Mille, 2016)

Uma comédia francesa que segue o modelo americano de Hangover mas que fica longe de ser uma cópia deslavada do original. O que me levou a ver o filme foi obviamente o Brasil. Na verdade o filme passa-se inteiramente neste país, salvo a introdução em território francês. Três amigas francesas viajam para o Rio para assistir ao casamento de uma amiga que tempos antes fora para o Brasil e por lá ficara sem dar notícias. As jovens chegam ao Rio e logo participam de uma festa, onde uma delas acaba por matar um rapaz que fazia a sua despedida de solteiro: era o noivo da amiga delas. A partir daí o filme aumenta de velocidade e os clichés sobre o Brasil atropelam-se (corrupção, violência, favela, bundas, sexo). Como se trata de uma comédia desbragada, ninguém leva a mal tamanha redução de um povo a atributos e realidades bárbaros. No fundo, filme é muito divertido, as atrizes são ótimas (fazem lembrar as spring breakers de Korine) e há personagens secundárias formidáveis (os funcionários franceses do Rio). Paris 3,5/5

Carmen (George Bizet)

Se a memória não me falha, vi Carmen em cena uma única vez (no Coliseu do Porto em 1998). Pela mesma altura Bieito Calixto preparava a encenação da produção que pude ver há dias. Ouvi falar muito mal desta encenação, que mesmo assim continua a ser apresentada depois de tantos anos após a sua criação. Achei-a bem interessante, moderna, e perfeitamente legível. Quanto aos cantores, a estrela da noite foi Roberto Alagna, que cantou muito bem, mas pouco melhor que as protagonistas que encarnavam Carmen e Micaela. Paris 4/5

A Midsummer Night’s Dream (Opéra de Paris)

A Opéra de Paris estreou A Midsummer Night’s Dream na famosa coreografia que George Balanchine fez para o New York City Ballet em 1962. Pode-se dizer que se trata de uma das mais belas adaptações de uma obra de William Shakespeare, neste caso sublimada pelo génio de Christian Lacroix, que se ocupou do cenário e dos figurinos. Com música de Felix Mendelssohn-Bartholdy, o espetáculo foi simplesmente perfeito. Paris 5/5

Nettoyage à Sec (Anne Fontaine, 1997)

Nettoyage à Sec foi escrito por Anne Fontaine e Gilles Taurand (argumentista de grandes filmes de Téchiné), que ganharam o prémio de melhor argumento em Veneza. Um casal de Belfort (Miou-Miou e Charles Berling), proprietários de uma lavandaria, conhecem um jovem (Stanislas Merhar) que faz shows de travesti em bares. Pouco a pouco envolvem-se com ele: a mulher torna-se seu amante, enquanto o homem se sente atraído pelo jovem mas reprime o seu desejo. Anne Fontaine é exímia na gestão da tensão sexual que percorre o trio de protagonistas, oferecendo-nos uma cena de província realista mas cheia de malícia. Paris 3/5

Il Posto (Ermanno Olmi, 1961)

Ao segundo filme, Ermanno Olmi assina uma obra-prima. Uma história de amor original entre dois estagiários no seu primeiro emprego. A entrada no mercado de trabalho pode ser tão marcante, tão traumatizante, quanto um primeiro amor. São momentos em que um jovem cresce e se torna de repente adulto, e vê à sua frente o seu futuro, as suas conquistas e as suas mágoas. Muito disto é mais sugerido do que mostrado neste filme. Olmi retoma o gesto realista de Rosselini, mas com mais humor (presente em muitas sequências no escritório e na festa de final de ano, por exemplo). Excelente. Paris 4,5/5

L'Autre côté de l'espoir (Aki Kaurismäki, 2017)

Tal como o anterior Le Havre (2011), o novo Kaurismaki, L'Autre côté de l'espoir, trata do exílio e dos refugiados na Europa de hoje. Com o humor e rigor de análise habituais, conta a história de um fugitivo da Síria que passa por vários países até escolher (ou ser escolhido?) a Finlândia como terra de abrigo. Eu tinha gostado muito de Le Havre, mas desta vez gostei menos deste regresso de Kaurismaki à Finlândia. Eu sei que o filme não pretende atrair turistas para esse país, mas em mim teve o efeito contrário: as personagens, sorumbáticas, movem-se em ambientes refrigerados, cultivam o humor negro mas não conseguem esboçar um sorriso, as cores predominantes são frias e sol é coisa que por lá não existe. Um cocktail difícil de apreciar. Paris 2,5/5

Teatro: Soudain, l'été dernier (Théâtre de l'Odéon)

Suddenly, Last Summer, o filme de Mankiewicz, com Katherine Hepburn, Elizabeth Taylor e Montgomey Clift, pôs a fasquia muito alto para as posteriores adaptações do belo texto dramático de Tennessee Williams. Foi um filme que me marcou muito e que me levou a procurar ver tudo de Williams. Nos anos 80 tive a felicidade de ver Bruscamente no Verão Passado, pelo Grupo Teatro Hoje/Teatro da Graça, encenado por Carlos Fernando. E ,muitos anos depois, vi agora Soudain, l'été dernier, no Théâtre de l'Odéon, encenado por Stéphane Braunschweig. Já não me recordo bem da produção de Carlos Fernando (com Isabel Castro?), só me lembro de que adorei na altura a trilogia de Williams proposta pelo Teatro da Graça, um dos grandes momentos de teatro na minha vida. Não posso dizer o mesmo da nova produção do Théâtre de l'Odéon. O palco é ocupado pela vegetação luxuriante do jardim de Mrs Venable, mãe de Sebastian, poeta que morrera no verão anterior em condições pouco claras. A narrativa dessa morte pela prima que o acompanhava é o clímax da peça. A vegetação ameaçadora do jardim remete para várias referências à crueldade da Natureza (de Deus?), como as plantas insectívoras de que Sebastian cuidava, a matança das tartarugas prenhas por aves carnívoras na praia visitada por Sebastian e pela mãe e, sobretudo, a morte de Sebastian às mãos de pobres esfomeados, dos quais ele se servira e depois rejeitara. Faltou à peça interpretações memoráveis (o doutor de Jean-Baptiste Anoumon é uma sombra ao pé de Montgomery Clift) embora Mrs Vanable e Catherine Holly tenham tido boas atrizes a defendê-las. Apesar de tudo, gostei mais da recente produção dos Artistas Unidos de The Night of the Iguana. Paris 4/5  

Teatro: Le Dibbouk (Shalom Anski, 1917)

Le Dibbouk ou entre deux mondes é considerada a obra-prima do teatro escrito em yiddish. Conta a história de uma noiva que é possuída pelo espírito do rapaz que amava e que morreu quando ela foi prometida a outro. A Igreja, através de um exorcismo, vai tentar salvar a vida da jovem... Uma peça interessante mas pouco mais do que isso. Paris 3/5