Montparnasse 19 (Jacques Becker, 1958)

Montparnasse 19 é o penúltimo filme de Jacques Becker. Trata dos últimos dias de Modigliani (Gérard Philipe), das suas relações com as mulheres e do seu insucesso comercial. Ele morre na mais absoluta pobreza. Mas o melhor do filme é a história de amor que o pintor vive com Jeanne (Anouk Aimée). Aliás, o filme tem um título alternativo que prioriza esse aspecto: Les Amants de Montparnasse. Outros filmes de Becker são dedicados a grandes histórias de amor: Casque d' Or, Antoine et Antoinette, Edouard et Caroline. Em Montparnasse 19 há uma personagem particularmente perturbante: o crítico e marchand de arte interpretado por Lino Ventura. A cena final, na qual o marchand espera a morte de Modigliani para ficar com todas as suas obras, é de arrepiar. Paris 3,5/5

Documentário: L'Opéra (Jean-Stéphane Bron, 2016)

Multiplicam-se os documentários sobre instituições culturais de referência. Os melhores são os de Frederick Wiseman (The National Gallery, La Danse – Le Ballet de l`Opéra de Paris). Mas este documentário francês sobre a Opéra de Paris também é muito bom. Claro, abundam as cenas de bastidores: reuniões, ensaios, crises (um cantor anula a sua participação numa ópera a dois dias da récita, o director da escola de dança demite-se). Mas a escolha de algumas personagens que acompanhamos ao longo do filme e o humor de várias situações tornam o filme sedutor e pertinente quanto ao assunto abordado. Paris 3/5

Opera: A menina de neve (Snegourotchka, 1882)

A menina de neve (Snegourotchka, 1882) é uma ópera rara, mesmo sendo a preferida do compositor russo, Rimsky-Korsakov. Em Paris, pelo que li, foi apresentada na Opéra-Comique em 1908, no Théâtre des Champs-Elysées 1929 e agora na Bastille. Não sei se veio para ficar, mas não será por falta de qualidade desta nova produção. A encenação de Dmitri Tcherniakov é um encanto do princípio ao fim e a protagonista é uma nova estrela do universo lírico: Aida Garifullina. A jovem de neve é, na verdade, filha do Gelo e da Primavera, e está condenada a desaparecer quando se apaixonar. De um conto tradicional russo, Rimsky-Korsakov escreveu uma ópera muito bela, com uma orquestração superior. Paris 4/5

Touchez pas au grisbis (Jacques Becker, 1954)

A matriz deste film noir de Jacques Becker é obviamente americana. Até o argumento faz lembrar outros filmes americanos. Jean Gabin roubou umas barras de ouro para poder reformar-se. Mas esse último golpe vai custar a vida de dois amigos, pois um rival no mundo do crime (Lino Ventura) pretende eliminá-lo e apoderar-se do ouro. Uma atmosfera de desencanto e de cansaço domina o filme e as personagens, que pouco falam a não ser para dizer o essencial. Um filme seco e enxuto como os melhores policiais. Paris 3,5/5

Casque d' Or (Jacques Becker, 1952)

Vi este filme pela primeira vez em 1997 na Cinemateca Portuguesa, num ciclo dedicado a Jacques Becker. Agora a Cinémathèque de Paris, e o circuito comercial, dedicam muitas sessões aos grandes filmes do realizador francês. Casque d'or, ou Aquela Loira, é um dos seus filmes mais amados. O filme articula duas temáticas caras a Becker: os amantes apaixonados, cujo amor resiste aos eventuais obstáculos; e o bas-fond dos pequenos mafiosos. Becker propõe um film noir à francesa, inspirado pelos americanos com certeza, mas também pela pintura de Renoir (aqueles momentos festivos no campo) e pelos filmes de Jean Renoir. Um belo filme. Paris 4/5

Go Fish (Rose Troche, 1994)

O filme "mais" lésbico que me foi dado a ver. Parece um hui clos, apesar de ter algumas cenas de exterior e serem vários os locais (bares, casas) onde se passa a ação. Um grupo de amigas, todas lésbicas assumidas, assistem, incentivam e comentam o enamoramento de duas delas, que à partida tudo opunha. Lembra por ver vezes Cassavetes, com mais humor e mais experimentação formal. Ganhou o importante prémio Teddy em Berlim. Visto no cineclube 7ème Genre 3/5

Opera: The Lighthouse (1980)

Resisto bastante às óperas contemporâneas. Poucas me agradam. The Lighthouse, criada em 1980 no Edinburgh Festival, é uma delas. A música e letra são de Peter Maxwell Davies e narra uma história que toca o fantástico: três guardas vão inspecionar um farol que está a funcionar normalmente, mas encontra-se vazio, tendo os seus ocupantes desaparecido misteriosamente. A temática marítima e a própria música lembram as obras de Britten. Pela primeira vez estive no belo Théâtre de l'Athenée. Paris 3,5/5

A Bout de souffle (Jean-Luc Godard, 1960)

Acontece-me com este filme o mesmo que com Citizen Kane: vejo-os por admiração (são dois dos filmes mais importantes da história cinema), mas com cada vez menos prazer. O Acossado é uma homenagem genial ao cinema americano... que inicia o período mais rico do cinema francês. Paris 3/5

Teatro: Renato Russo o Musical

Um musical sobre um dos maiores poetas do rock brasileiro. Renato Russo foi líder dos Legião Urbana, talvez a melhor banda de rock brasileira, sem dúvida aquela que gera mais culto e cujos discos nunca deixaram de ser relançados. As canções de Russo foram consagradas por estrelas da mpb e assim chegaram a um vasto público que não curte necessariamente o rock. Não imagino esta peça sem o protagonista, Bruce Gomlevsky, que carrega a produção aos ombros. Ele está sempre em palco e é o único ator do espetáculo. Este aliás mais parece um concerto, pois a dramaturgia em torno da vida de Russo é mínima. Rio Teatro das Artes 3,5/5