Documentário: Rocco (2016)

Rocco Siffredi é a maior estrela porno. Ao chegar aos 50 anos, no auge da carreira de ator e produtor, decide fazer o seu último filme. O que este bom documentário mostra é um homem atormentado pelo seu papel de pai de dois filhos adolescentes e pela sua natureza de máquina sexual. Curiosamente, é uma atriz famosa, Kelly Stanford, que formou em tempos uma célebre dupla com Rocco, que vai explicitar essa natureza de máquina sexual, que também se lhe aplica. Documentário de Thierry Demaiziere e Alban Teurlai. Paris MK2 Bibliothèque 3,5/5

Denis Villeneuve: Arrival (2016)

Arrival foi para mim uma desilusão. Esperava um filme com a força de Gravity, mas não é bem assim. Uma linguista eminente é requisicionada pelo exército americano para decifrar a linguagem dos aliens que pousaram na terra. Ela acaba por comunicar com eles e salvar o mundo, além de encontrar o homem que lhe dará um filho... Pelos vistos, as coisas estão ligadas, mas eu perdi-me nos pormenores da trama... O pior é quando surgem as sequências à la Malick, de mergulhos na consciência da protagonista e epifanias várias... Herói por herói (americano) prefiro Sully a esta Doutora Banks. Paris MK2 Bibliothèque 2,5/5

Teatro: Brasseur et les Enfants du Paradis (Daniel Colas, 2016)

Excelente ideia e realização de Daniel Colas e Alexandre Brasseur. Visitar os bastidores do mítico filme Les Enfants du Paradis (1945) por um dos seus principais intérpretes, Pierre Brasseur. O filme teve uma produção bastante atribulada durante a ocupação alemã da França. No monólogo de Alexandre Brasseur (neto de Pierre), surgem em primeiro plano as questões políticas, mas também é evocada Arletty, protagonista do filme. Paris, Théâtre du Petit Saint-Martin a convite e na companhia de B. 3/5

Jacques Becker : Antoine et Antoinette (1947)

Antoine et Antoinette é o quarto filme de Jacques Becker, realizador francês que conheço mal. Conta a história de um casal (Roger Pigaut e Claire Maffei) jovem e apaixonado, pertencente à classe trabalhadora, que ganha a loteria. O melhor do filme, que tem muitas qualidades, é o modo como é filmado o amor quotidiano do casal, nos seus pormenores e nas suas ameaças, e a vida simples dos trabalhadores de Paris. O filme recebeu o principal prémio do festival de Cannes, equivalente à Palma de Ouro. Muito bom. Paris 4/5

Opera: Iphigénie en Tauride (Opera de Paris, 2016)

Foi muito bom ouvir esta ópera de Gluck, um compositor fundamental que conheço muito mal. Baseada na obra de Eurípedes, com personagens associadas à guerra de Troia, a ação foi transposta pelo encenador Krzysztof Warlikowski para um lar da terceira idade. Vilipendiada na estreia em 2016, esta encenação é agora bem recebida por quase todos. Eu fico indiferente perante tal opção. Na verdade, Iphigénie en Tauride (1779), para mim, oferece momentos de canto belíssimos, cantados por Iphigénie (Véronique Gens, a melhor em palco), Oreste (Etienne Dupuis), Pylade (Stanislas de Barbeyrac) e pelo coro. Paris 4/5

Park Chan-wook : Mademoiselle (2016)

Park Chan-wook adapta um romance britânico (de Sarah Waters, 2002) e apresenta um thriller erótico polvilhado de muito sadismo. Uma jovem vai ser criada pessoal de uma mulher rica, que vive fechada numa mansão na Coreia durante a ocupação japonesa nos anos 30. O objetivo da criada, e de um seu comparsa, é ficar com a fortuna desta família rica e excêntrica. O filme tem a beleza imponente dos filmes de Chen Kaige, e a história cheia de curvas segue-se com surpresa e prazer, mas é um prazer que termina assim que o filme acaba. Tantas surpresas no argumento cansam-me e é daqueles filmes que dificilmente voltarei a ver. Paris 3/5

William Wyler: The Heiress (1949)

William Wyler realizou um dos meus filmes preferidos (Jezebel) e fez grandes filmes, mas não está entre os realizadores que mais prezo. Demasiado clássico e pouco autoral para o meu gosto. No entanto, muitos dos seus filmes são belíssimos e vejo e revejo-os sempre com prazer. Por acaso, nunca tinha visto A Herdeira, que considero agora um dos seus melhores filmes. Adapta Washington Square de Henry James e tem um quarteto de atores perfeito: Olivia de Havilland, Montgomery Clift, Ralph Richardson e Miriam Hopkins. Recebeu o óscar para melhor atriz (Havilland) e melhor música (Aaron Copland), entre as 8 nomeações que teve. A herdeira é uma (não muito) jovem mulher que vai resistindo ao casamento, acabando por permanecer solteira após uma perspetiva de casamento frustrada. Muito bom. Paris 4/5

Teatro: Siegfried (Giraudoux, 1928)


Siegfried (1928) é a primeira peça de Jean Giraudoux e tornou-o imediatamente célebre. A peça foi encenada por Louis Jouvet na Comédie des Champs-Elysées e ambos, autor e encenador, dominaram o teatro francês dos anos 30. Siegfried conta a história de um político alemão célebre que descobre que é na realidade francês, o que abre uma crise pessoal que é o eixo central da peça. Visto no Théâtre du Nord Ouest em 2012 e em 2016 (3/5)

Vincent Perez: Seul dans Berlin (2016)

Seul dans Berlin é uma co-produção europeia (realizada por um francês) que adapta o romance do alemão Hans Fallada (1947) sobre a resistência alemã ao poder nazi. Um casal que vive em Berlim perde o filho na guerra e eles decidem então declarar guerra ao poder de Hitler. A história é interessante mas a qualidade não ultrapassa a de um telefilme ou de uma série de televisão que apostam tudo na reconstituição histórica e em outros "valores de produção". O tédio está garantido. Paris 2/5

Stephen Frears: My Beautiful Laundrette (1985)

Este filme de Frears é um retrato justo e implacável da Inglaterra e da sua comunidade indiana e paquistanesa nos anos Thatcher. É também uma história de amizade e de amor entre um jovem de origem paquistanesa e um jovem brit ligado a um grupo racista. O filme foi feito e financiado pela televisão (e pela produtora Working Title), mas a sua qualidade justificou a estreia nas salas. Um dos trunfos do filme e que está na base do seu sucesso internacional é o argumento de Hanif Kureishi, nomeado para o óscar do melhor argumento (ganho por Woody Allen nesse ano). Paris 3,5/5