Teatro: Les Damnés (Comédie-Française, 2016)

Les Damnés é uma peça de teatro estreada no Festival de Avignon e agora apresentada na Comédie-Française, com encenação de Ivo van Hove. Trata-se da adaptação aos palcos do argumento de Luchino Visconti, Nicola Badalucco e Enrico Medioli que está base do filme homónimo realizado por Visconti. O filme (e a peça) conta a história de uma família de industriais que se alia aos nazis quando estes ascendem ao poder na Alemanha de 1933. Durante um jantar de família, o Reichstag pega fogo, um comunista é tido como o responsável, e a família Krupp tem de se posicionar a favor do regime que daí vai resultar, apesar das divergências políticas dos seus membros. Sucede-se uma espiral de violência com origem e alvo os elementos da própria família. Uma espécie de Bórgias da elite industrial nazi. 
O espetáculo de Ivo van Hove serve-se de todos os trunfos do teatro para representar o universo de demência crescente da família Krupp. Talvez como homenagem à origem cinematográfica da peça, o vídeo está presente do princípio ao fim do espetáculo. Um enorme ecrã no palco e plasmas espalhados pela sala transmitem em grande plano muitas das cenas, assim como o movimento dos atores nos bastidores e fora do palco. Por exemplo, uma personagem percorre o teatro, os corredores, os halls, e sai para a rua descalça enquanto a vemos nos ecrãs. Foi uma cena poderosa e divertida ao mesmo tempo. Assim, há sempre um cameraman em palco e qualquer coisa a passar-se nos écras. Como em qualquer espetáculo moderno que se preze, há (várias) cenas de nudez integral, sobretudo masculina, que remete para a dimensão viril e guerreira da sociedade alemã da época. As mortes sucedem-se e os enterros também: na parte direita do palco, uma fila de caixões em que vai entrando cada vítima, e nos ecrãs vemos o seu desepero no interior do caixão até à sua asfixia. Paris 4/5
Les Damnés é apenas um caso entre muitos em que o património do cinema tem dado origem a criações inéditas no contexto de outras artes. Ainda este ano vi no Teatro São João no Porto My Dinner with Andre (1981), a partir do argumento de um filme de Louis Malle. Mas o teatro musical não tem deixado em paz os clássicos do cinema: de memória lembro-me dos musicais que nos últimos adaptaram as obras-primas Singin in the Rain, Les Parapluies de Cherbourg e Sunset Boulevard. Há pouco, em França, foi adaptado para teatro o argumento de Husbands and Wives (Woody Allen, 1992). Um exemplo bem mais antigo foi a adaptação para musical da Broadway de As Noites de Cabíria (Fellini, 1956): como musical (no teatro e mais tarde no cinema) ganhou o nome de Sweet Charity (Bob Fosse, 1969).

Federico Fellini: La Strada (1954)

Um filme comovente e triste sobre dois seres solitários, uma mulher ingénua e generosa (Giuletta Masina) e um entertainer popular autoritário e machista (Anthony Quinn), que não se suportam mas acabam por amar-se a seu modo. Curiosamente trata-se da mesma história de Macdam Cowboy, que vi recentemente e de que, aliás, gostei bem mais. Um marco no cinema italiano, com uma Giulietta Masina inesquecível. Paris 3/5

Opera: Norma (Bellini, 1831)

Com Norma começaram as transmissões em direto do Covent Garden da temporada de opéras e ballets. Apesar de falhas na encenação, a música nunca decepcionou. O elenco, muito bom, foi encabeçado por Sonja Yoncheva, que arrancou muitos aplausos. Paris 5/5

Opera: Eliogabalo (Cavalli, 1667)

Raramente assisto a óperas do século XVII, por isso a oportunidade de ouvir Cavalli foi altamente gratificante. Foi um excelente espetáculo, esta rara produção de Eliogabalo, escrita em 1667 mas que viria a ser criada apenas em 1999, em Crema. O canto tem a simplicidade e o lirismo vindos de Monteverdi, criador da ópera como género. Paris 4/5

Expo: Herb Ritts en pleine lumière (MEP, 2016)

Apesar de conhecer muitas fotografias de Herb Ritts, mesmo não sabendo que são assinadas por ele, como as fotos de Madonna, foi uma revelação ver tantas das suas fotos juntas no quadro de uma retrospetiva que lhe dedica a MEP. Fotógrafo célebre, requisitado pelos famosos, Ritts elege o preto e branco, a imensa luz, as paisagens desertas, o corpo nu, o retrato humano, como obsessões que dão uma unidade notável à sua obra. Criou também alguns video-clipes, como Cherish, de Madonna, ou Wicked Games de Chris Isaac, apresntados na exposição. Só é pena que a esta ocupe duas salas, devia ser maior. MEP 5/5
Também gostei de Translúcidas, de Paolo Titolo, sobre transexuais. Dos corpos perfeitos e elásticos de Ritts passamos para os corpos imperfeitos, em transformação, dos homens em mulheres. MEP 3/5

The Secret Life of Pets (2016)

Finalmente vi The Secret Life of Pets, que estreou há dois meses em França (Comme des bêtes) e há um mês em Portugal (A Vida Secreta dos Nossos Bichos). Por todo o lado, um sucesso fenomenal bem merecido: o filme é divertidíssimo. Afinal, os nossos animais de estimação (como os nossos brinquedos em Toy Story) têm uma vida própria e nada doméstica, pois a qualquer momento a cidade torna-se no cenário de uma grande e perigosa aventura. Trata-se da sexta produção da Universal Pictures/Illumination Entertainment. Paris 4/5

Ira Sachs: Little Men (2016)

Ira Sachs continua, depois de Love is Strange (2014), a retratar as relações humanas em Nova Iorque, afetadas por mudanças legais e urbanísticas. Uma costureira vê-se obrigada a sair da loja que mantém há muitos anos porque o seu proprietário morreu e sucedeu-lhe o filho, movido por outros interesses que não passam por manter a renda baixa para conservar o pequeno comércio tradicional. Mas os filhos de ambos vão construindo uma amizade enquanto os pais se afastam e se viram as costas. Paris 3/5

Ishirô Honda: Prisionnères des martiens (1957)

Um filme que nos faz sorrir do princípio ao fim. Um filme datadíssimo que por essa mesma razão se vê hoje com gosto. Dez anos depois do lançamento da bomba atómica, os japoneses fazem um filme em que se admite essa solução (mas logo descartada) para lutar contra os marcianos. Que, pasme-se, vieram à terra para encontrar mulheres para melhorar a raça. Paris 2/5 

Disco: HIStory: Past, Present and Future – Book I (Michael Jackson, 1995)

Não há paixão como a primeira, dizem. No caso de Michael Jackson, a primeira canção que conheci dele continua a ser a minha preferida: Don't Stop 'Til You Get Enough. E o álbum que contem este hit é talvez o meu preferido: Off the Wall (1979) é um álbum mais soul e disco do que os grandes discos que Michael viria a fazer nos anos 80. HIStory é um álbum duplo: inclui um disco de best of e outro de originais. Foi mais um disco de sucesso fenomenal em todo o mundo. Com os hits Scream (com a irmã Janet), They don't care about us, Earthsong, You are not alone. Nenhuma destas canções está entre as minhas preferidas de Michael mas são brilhantes canções pop como só ele sabia fazer. Muito bom. 4/5

Valerio Zurlini: Estate violente (1959)

Pouco me falta descobrir de Valerio Zurlini, as curtas e a primeira longa-metragem, portanto passei àquela fase de reencontro, de visitas a um velho amigo. Isto porque Zurlini é um dos meus realizadores preferidos, um dos que mais me dá prazer de revisitar. Um Verão Violento, a sua segunda longa, é a história de um amor em tempo de guerra, entre um jovem estudante (Jean-Louis Trintignant), filho de um líder local fascista, e uma mulher mais velha (Eleonora Rossi Drago), viúva e mãe de uma menina. O amor mais ou menos socialmente desajustado (estamos em 1943) isola as personagens dos seus amigos e familiares e afasta-as da realidade da guerra que no entanto ensombra a sua rotina. O realizador ama as suas personagens e esse amor tem um eco na paixão que o espectador sente pela história e suas personagens. Zurlini nunca foi popular e não despertou paixões cinefilas alargadas. Na sessão a que assisti pude ter um indício dessa recepção problemática: vários espectadores abandonaram a sala antes do fim do filme. Como não gostar de um filmes destes? Vi-o ontem pela terceira vez, depois de o ter visto, sempre em sala, em 1997 e em 2007. Paris 4/5