Recital: Angela Gheorghiu (2018)

Angela Gheorghiu não escolheu a via mais fácil e previsível para ser ovacionada, como ela evidentemente gosta. Cantou em cinco línguas, pelo menos (romeno, italiano, francês, inglês e russo), canções que dispensam o estilo operático. Canções de salão, lieder, ariette, canções populares. Para mim houve muitas e boas novidades. Mas a casa (Palais Garnier) veio mesmo abaixo quando, no bis, Angela cantou  Je te veux (Satie) e, sobretudo, Mio bambino caro (Puccini). Continua a diva de sempre. Caprichosa e grande cantora. Paris 4/5 
Algumas cancões do programa :
Plaisir d’amour (Giovanni Battista Martini)
Tristesse (Frédéric Chopin)
Nuit d’étoiles (Claude Debussy)
Vaga luna (Vincenzo Bellini)
Nebbie (Ottorino Respighi)
Ideale (Francesco Paolo Tosti)
Bohemian Girl (Michael William Balfe)
George Stephanescu e Tiberiu Brediceanu
Je te veux (Erik Satie)
O mio babbino caro (Giacomo Puccini, de Gianni Schicchi)

C'eravamo tanto amati (Ettore Scolaire, 1974)

Gianni (Vittorio Gassman), Antonio (Nino Manfredi) e Nicola (Stefano Satta Flores)
Nous nous sommes tant aimés (1974) é um filme de balanço, mas também um filme de despedida. Três amigos, três camaradas que lutaram na resistência anti-fascista da segunda guerra, encontram dificuldades em refazerem a vida depois da guerra, segundo os valores que defendiam na juventude. Antonio (Nino Manfredi), Gianni (Vittorio Gassman) e Nicola (Stefano Satta Flores) amaram a mesma mulher (Stefania Sandrelli) e em parte por ela se separaram. Encontram-se 30 anos depois e parece só ter havido desilusões na vida deles. O mais comovente no filme, para um cinéfilo, é o olhar retrospetivo sobre o cinema italiano desde o Ladrão de Bicicletas até ao Dolce Vita. Vemos imagens do primeiro, quando é passado num cineclube (e criticado pelas autoridades reacionárias) e vemos as filmagens da cena do banho na Fontana de Trevi, com Fellini e Mastroianni no local. O cinema italiano, ao invés da vida dos três amigos, parece ter cumprido as suas promessas. Um belo filme nostálgico que já acusa (ai aquela música...) a decadência irreversível do cinema italiano. Recebeu o  César du meilleur film étranger. Paris 3,5/5

Ópera : La Cenerentola (Rossini)

O lugar de La Cenerentola, de Rossini, a sua segunda ópera mais apresentada nos palcos mundiais, é mesmo o palco. É uma ópera que precisa de ser vista, mesmo numa versão de concerto como a que  vi esta semana no Théâtre des Champs-Elysées. Os cantores--atores deram-se de tal modo ao jogo do teatro que esquecemos que falta um metteur en scène. Para quê? Até o maestro e os músicos contribuíram para o divertimento que ocorria no palco e mexia com o público. No final, toda a equipa foi ovacionada. Já tinha visto Karine Deshayes no papel da Cenerentola, e agora  ela confirma mais uma vez que é uma das grandes Angelinas de hoje. Foi uma grande noite de teatro musical. Paris 4,5/5
Produção doThéâtre des Champs-Elysées, 
Enrique Mazzola (direção) 
Orchestre National d’Ile-de-France
Ensemble Aedes 
(direção de Mathieu Romano)
Elenco: Karine Deshayes (Angelina ou la Cenerentola), Peter Kálmán (Don Magnifico), Cyrille Dubois (Don Ramiro), Vito Priante (Dandini), Luigi de Donato (Alidoro), Hasmik Torosyan (Clorinda), Alix Le Saux (Tisbe)

Leitura: The Bridge of San Luis Rey (Thornton Wilder, 1927)

Quando começamos a ler um livro temos sempre algumas expectativas inspiradas pelo autor e pelo título. Já conhecia (de ouvir falar) o clássico americano The Bridge of San Luis Rey de Thornton Wilder. E esperava vagamente qualquer coisa muito distante da história narrada neste romance: a vida de vários personagens que viveram no século 18 no Chile e que morreram no mesmo instante, quando a ponte San Luis Rey caiu. As personagens são fascinantes: uma aristocrata solitária abandonada pela família com grande talento literário revelado nas cartas escritas à filha; dois gémeos sem família, criados num convento; uma atriz do teatro local, Camilla la Périchole, que defendia o teatro espanhol do siglo de Oro; o tio Pio, que era o seu coach (Camilla não morreu na queda da ponte, morreu o seu filho que ia acompanhado do tio Pio). Um romance muito interessante sobre a vida numa colónia espanhola no século 18. Paris 3,5/5

Bombshell: The Hedy Lamarr Story (Alexandra Dean, 2017)

Este documentário biográfico sobre a estrela de Hollywood dos anos 40 Hedy Lamarr vai trazer uma grande novidade para os menos atentos às coisas do cinema: Lamarr inventou um sistema de comunicação que está na origem do wifi, bluetooth e outros equipamentos que não dispensamos hoje. Lamarr desenvolveu essa invenção com o compositor George Antheil mas foi muito tardiamente reconhecida como inventora, aliás quando o seu invento foi aplicado no final dos anos 50, a sua autoria foi ignorada e nunca recebeu o dinheiro que lhe era devido. Mas o documentário também explora obviamente a sua carreira de atriz, que teve importância apenas nos anos 40. Também aí Lamarr foi diferente das outras atrizes: ela produziu alguns filmes, sem sucesso, de modo a controlar a sua imagem. Lamarr casou muitas vezes, mas os casamentos foram de curta duração, e, surpresa das surpresas, antecipou a dependência das estrelas da cirurgia estética. Fazia uma para corrigir a anterior e sugeria procedimentos aos cirurgiões que depois vieram a tornar-se comuns. Belo documentário. Paris 3,5/5

Death on the Nile (John Guillemin, 1978)

Nos anos 70 do século passado, a indústria do cinema entreteve-se a reunir grandes elencos de estrelas em filmes de grande orçamento e apelo popular. Além dos filmes-catástrofe, outros houve que optaram por histórias mais clássicas, como as de Agatha Christie. Morte no Nilo é um dos que deixou boa memória em muitos espectadores, como eu. Será que o vi no cinema ou na televisão? Não me recordo. Aproveitei uma sessão de um cineclube dedicado ao Orientalismo no cinema para rever este filme, com algum receio pois a última versão de um mistério de Christie para o cinema foi bem bem dececionante (Crime no Expresso do Oriente, por Kenneth Branagh). Morte no Nilo não quer ter nada a ver com o médio oriente, que serve tão só de cenário às férias de uma série de burgueses insatisfeitos com a vida que têm (e indiferentes à paisagem e aos indígenas do local). Num esquema típico de Agatha Christie, a morte de uma personagem num cruzeiro no Nilo vai revelar que todos os participantes do cruzeiro tinham algum desejo ou interesse nessa morte. Mas um deles, ou vários deles associados entre si, terá efetivamente cometido o crime. Segue-se a investigação de Poirot e o desenlace sempre (mais ou menos) inesperado. Entretenimento à moda antiga mas ainda (nostalgicamente) sedutor. Paris 3,5/5
O impressionante elenco: Peter Ustinov (Hercule Poirot), Maggie Smith, Angela Lansbury, Bette Davis, Mia Farrow, David Niven, George Kennedy, Jack Warden (Peter Ustinov, Maggie Smith e Angela Lansbury foram nomeados nos BAFTA). 
Foi nomeado para o Golden Globe for Best Foreign Film.

Opera: Trouble in Tahiti (Bernstein, 1952)

Trouble in Tahiti é uma ópera breve (um único ato, menos de uma hora de duração) com música e libreto de Leonard Bernstein. Narra um dia na vida de um jovem casal, com um filho, mergulhados em plena crise sentimental. O amor desertou o quotidiano de Sam (Laurent Deleuil) e Dinah (Éléonore Pancrazi): ele refugia-se no trabalho, onde é um vencedor, ela nos filmes e nas sessões com o psicanalista. Nesse dia nenhum deles comparece na festa escolar do filho, ele preferiu o desporto com os amigos, ela o escape do cinema, onde vê o filme Trouble in Tahiti. O mais curioso é que foi em plena lua de mel que Bernstein concebeu este retrato de casal de subúrbio afogado nas suas ilusões de juventude... A produção que acabo de ver no Théâtre de l'Athénée é tão boa que não só me deu a conhecer esta ópera como me fez amá-la logo à primeira.
A abrir a noite foi apresentada Manga-café, em criação absoluta, uma ópera breve com um só ato com música e libreto de Pascal Zavaro. Totalmente contemporânea, pelo menos no argumento. Um jovem nerd, muito tímido, passa os dias nas redes sociais, e é estimulado pelos amigos internautas a marcar encontro com uma miúda. Não me imagino a ouvir esta ópera em casa, mesmo em vídeo (afirmação que generalizo a muitas óperas contemporâneas), mas como espetáculo cénico e musical esteve tudo muito bem. As duas óperas foram encenadas por Catherine Dune e contaram com o pequeno conjunto Les Apaches dirigidos por Julien Masmondet. Paris 4/5
Catherine Dune
(encenação)
Julien Masmondet
(direção musical) 
Ensemble Les Apaches
Os cantores
Éléonore Pancrazi 
Laurent Deleuil
Morgane Heyse
André Gass
Philippe Brocard

Ópera: Boris Godounov (Moussorgsky, 1869)

Boris Godounov é uma das obras mais representativas da Arte russa. Talvez seja mesmo a ópera mais amada dos russos. Trata de um Tsar do século 16, Boris Godounov, sobre o qual corria o boato de ter assassinado uma criança para chegar ao trono. A ópera centra-se no drama íntimo de Boris, atormentado pelo crime que talvez nunca cometera ou cometeu e reprimiu no inconsciente. Foi a primeira vez que vi ou ouvi esta ópera e gostei muito, mas é preciso ouvi-la várias vezes para gostar a sério desta obra. Esperava algo de mais faustoso e de um Boris velho e cansado (como se vê nas fotos de Christoff e Ghiaurov, que marcaram o papel no século XX). Mas o encenador Ivo van Hove escolheu um cenário moderno e minimalista onde domina uma escadaria no centro, que desce para baixo da terra. O poder, mesmo absoluto, é frágil, e pode facilmente ir-se abaixo. Assim acontece com Boris, o Tsar. Para o interpretar Idar Abdrazakov é a boa opão. Jovem e bem parecido, estreia-se agora neste papel mítico e só poderá melhorar com a experiência. O papel exige amadurecimento do cantor, que permita exprimir os dilemas interirores do personagem. Paris Bastille/cinema 4/5
Boris Godunov (Mussorgsky)
versão original de 1869
Ivo van Hove (encenação)
Vladimir Jurowski (direção musical)
com
ldar Abdrazakov (Boris)
Evdokia Malevskaya (Fiodor)
Ruzan Mantashyan (Xénia)
Maxim Paster (Chouïsky)
Boris Pinkhasovich (Chtchelkalov)
Mikhail Timoshenko (Mitioukha)
Ain Anger (Pimène), Dmitry Golovnin (Grigori)
Elena Manistina (aubergiste)

Leitura: Jean Renoir, cinéaste (Celia Bertin, 1994)

É o primeiro livro que leio sobre Jean Renoir. É uma biografia sucinta e competente, como é norma nesta coleção da Gallimard. Jean Renoir é apontado como o maior cineasta francês, quando muito do período clássico, anterior à Nouvelle vague. Dois dos seus muitos filmes estão entre os meus preferidos, The River (1951) e sobretudo La Règle du jeu (1939). Da leitura deste livro fica claro que o reconhecimento do seu talento e dos seus filmes, pelo público e pela crítica, não foi regular e aconteceu bem menos vezes do que se poderia pensar. Renoir batalhou muito para ganhar um lugar ao sol e não à sombra do pai, o pintor impressionista Renoir. Muitos dos seus filmes, quer de produção francesa, quer da fase americana, foram compreendidos e valorizados apenas por algumas (poucas) vozes, muitas vezes gratificados com escasso público. Parece-me que o reconhecimento mais alargado  e consensual que tiveram tantos realizadores clássicos (Ford, Wyler, Hawks, Carné, etc.) só chegou a Renoir a posteriori, depois da obra feita. Talvez continue a ser um cineasta mais amado por um núcleo duro e restrito de cinéfilos do que por um público mais alargado, mas interessado no cinema. 4/5

Octopus (The Human League, 1995)

Gosto muito de ouvir este álbum. Ainda hoje. Pop eletrónica totalmente dependente dos sintetizadores. Mas canções bem escritas e sublimadas pelas vozes do trio: Philip Oakey, Joanne Catherall e Susan Ann Sulley. Destacam-se Tell me when, Never again, Onde Man in my heart, Words e até o instrumental John Cleese is he funny? Os Human League fizeram melhor nos anos 70 e 80, mas Octopus mantem intactos o charme e a qualidade do grupo. 4/5
As canções
1.Tell Me When (Paul Beckett, Philip Oakey)
2.These Are the Days (Philip Oakey, Ian Stanley)
3.One Man in My Heart (Philip Oakey, Neil Sutton)
4.Words (Russell Dennett, Philip Oakey)
5.Filling up with Heaven (Philip Oakey, Ian Stanley)
6.Housefull of Nothing (Paul Beckett, Philip Oakey, Ian Stanley)
7.John Cleese: Is He Funny? (Philip Oakey)
8.Never Again (Jo Callis, Philip Oakey)
9.Cruel Young Lover (Paul Beckett, Russell Dennett, Philip Oakey)