Once a Clear Day You Can See Forever (Vincente Minnelli, 1970)

Once a Clear Day You Can See Forever reúne grandes nomes do cinema musical do passado (Minnelli, Alan Jay Lerner e Montand) com uma estrela em ascensão no final dos anos 60: Barbra Streisand. Sem fazer a mínima sombra aos clássicos do passado, Melinda (título alternativo) vê-se com bastante agrado precisamente pelos nomes envolvidos. Para mim, o melhor são as canções de Alan Jay Lerner (lyrics) e de Burton Lane (score), algumas ficaram mesmo no repertório até hoje (mas é verdade que na base do filme está o musical homónimo da Broadway). A história anda à volta da relação entre um psiquiatra (Montand) e uma jovem (Barbra) que, ao submeter-se a umas sessões de psiquiatria, descobre uma antiga encarnação. Sob hipnose, a jovem transforma-se numa aristocrata inglesa que protagoniza cenas oníricas de grande beleza plástica. Quando canta, Barbra é enorme, mas também há cenas em que o seu histrionismo é quase insuportável. Para além de Montand, aparece num pequeno papel Jack Nicholson, cool como sempre. VC 3,5/5

Leitura: Fosse (Sam Wasson, 2013)

Uma leitura que me ocupou dois verões, o de 2016 e este. São 700 páginas, incluindo 100 de notas, para dar conta de uma vida dedicada à arte da dança, da coreografia, do teatro, do cinema, e em todas essas áreas Bob Fosse marcou os que com ele trabalharam/viveram e o público amante dessas artes. Fosse tinha dúvidas quanto a ser um artista ou não mas não parou muito para tirar isso a limpo, pois o trabalho não o largava (ou vice-versa). Sam Wasson tem aquele dom dos americanos e ingleses em não recuar perante o objetivo de escrutinar uma vida nos seus mais pequenos pormenores, que são bem vindos particularmente quando o que está em causa é a gestação, sempre complexa e fugidia, de grandes obras como Cabaret, Chicago, Pippin, Lenny, All That Jazz, Sweet Charity... Uma leitura nem sempre fácil mas sempre empolgante. VC 5/5

Leitura: Impunidade (H. G. Cancela, 2014)

Difícil apresentar ou resumir a história deste romance, cujos meandros vão sendo revelados pouco a pouco. Talvez isso não seja importante. Logo de entrada (e vai ser assim todo o caminho) encontramo-nos perante seres magoados, náufragos de uma tragédia familiar de que nada sabemos mas a seu tempo saberemos. Duas crianças, o narrador, suposto pai das crianças, a mãe destas, uma outra mulher e o seu filho adolescente. Pouco falam, pouco fazem e pouco sabemos das suas motivações; e as crianças não são crianças, tolhidas já pelos crimes dos adultos. O narrador descreve imperturbável os escassos movimentos dos personagens, mas tudo é engolido pelo silêncio e pelo calor do interior de Espanha no verão. Mas há as breves notas sobre o corpo das mulheres, revelando um narrador perturbado, por momentos. Impunidade foi finalista do prémio da APE, o júri acertou ao considerá-lo merecedor de tal galardão. Praia das Caxinas 3,5/5

Disco: Songs of South Pacific (Pickwick, 1993)

Há meses vi a versão para cinema deste conhecido musical de Rodgers & Hammerstein II, mas foi com este disco que pude atentar melhor na beleza da famosa partitura. Este disco foi gravado por artistas do West End londrino. Matthew Freeman dirige a The West End Orchestra e cantam, entre outros, Gemma Craven ("I'm gonna wash...", "I'm in love with a wonderful guy"), David Kernan (("Some enchanted evening"), Linda Hibberd ("Bali Ha'i"), ou Nic Curtis ("Younger than springtime"). Não conheço muitas gravações destas canções por artistas do teatro musical, mas parece-me que é difícil fazer muito melhor do que isto. VC 5/5 

The Amazing Transparent Man (Edgar G. Ulmer, 1960)

Uma hora apenas é suficiente para dar vida a esta incrível história escrita por Jack Lewis sobre um homem que é forçado a passar por uma experiência científica que o torna invisível. Tal ousadia científica tem consequências deploráveis, tornando impune o homem invisível que se dedica ao roubo de bancos e outros crimes. Interessante. VC 2,5/5

Hell Town (Charles Barton, 1937)

Antes da idade adulta começar para os westerns com Stagecoach (Ford, 1939), os westerns eram assim: orçamentos pequenos para filmes breves (60m), inspiração na literatura popular do género (este adapta Zane Grey, o rei do western), histórias esquemáticas e muita, muita ação. E é esta o que mais me fascina neste filme modesto com John Wayne: tiroteios, perseguições a cavalo, pancadaria de saloon, gado em fuga. Não há máquinas nem efeitos especiais a acelerar estas incriveis cenas de ação. Assim é que é (era). VC 2/5 

King of the Zombies (Jean Yarborough, 1941)

Menos de dez anos depois do filme fundador dos zombies (White Zombie, 1932), já se podia brincar com estes seres do outro mundo. King of the Zombies (1941) é bem um filme de terror, mas desde a primeira cena, quando um avião cai numa ilha povoada por zombies, que a personagem interpretada por Mantan Moreland introduz o registo cómico que contagiará todo o filme. E é sem dúvida o que eu mais gostei do filme: todas as cenas de Moreland são engraçadas, ainda hoje. VC 3/5

White Zombie (Victor Halperin, 1932)

O filme independente White Zombie (produzido pelos irmãos Halperin) é a primeira longa-metragem sobre zombies da história, filão do cinema popular que hoje está bem vivo. Mas o interesse desta obra filmada em duas semanas, à noite, com um orçamento de série B, reside na maravilhosa atmosfera de inquietação e medo que age sobre o espectador logo a partir da primeira sequência, quando um casal de noivos chega de noite a uma mansão em Tahiti. Bela Lugosi é o protagonista do filme, já célebre por ter feito Dracula no ano anterior. Um clássico que ganhou com o tempo um culto que a sua estreia, mal acolhida pela imprensa, não fazia prever. VC 3,5/5

When Harry Met Sally (Rob Reiner, 1989)

Esta comédia romântica é um marco do género. O argumento, um dos grandes trunfos do filme, é de Nora Ephron e foi justamente nomeado ao Oscar. Nora Ephron continuaria depois a assinar argumentos de dois filmes que têm muito em comum com este, ambos interpretados por Meg Ryan, Sleepless in Seattle (1993) e You've Got Mail (1998)
Quanto a When Harry Met Sally, o par Meg Ryan e Billy Crystal passa o filme brigando por tudo e por nada e por pouco poderíamos pensar que o romance não quer nada com eles. Mas ele acontece, depois de mil contratempos. Um filme adorável. VC 4/5

Spitfire (John Cromwell, 1934)

A única razão para ver este filme hoje é Katherine Hepburn. Mesmo assim, é o pior filme que conheço dela e a sua escolha para o papel de uma mulher solitária que vive na floresta e é acusada de bruxaria pelos vizinhos é evidentemente um erro. VC 2/5